sábado, 1 de maio de 2010

A História de uma Mania

Em 1959 nascia o primeiro kart, um brinquedo que iria mudar a história do automobilismo brasileiro.

Largada de uma corrida de Kart nos anos 60.

Final da década de 50, mais precisamente 1959. A Europa se preparava para receber os Beatles e os Rolling Stones. Enquanto isso, no Brasil, longe da Europa e do Rock'n Roll, começava a surgir uma brincadeira que em pouco tempo se tornaria a escola dos maiores nomes do automobilismo brasileiro.
Entusiasmado com as corridas que assistiu nos EUA, com pequenos carrinhos de motores dois tempos, o comerciante de automóveis Cláudio Daniel Rodrigues resolveu "importar" a idéia, fabricando os primeiros chassis de kart do Brasil. Em uma época onde o improviso falava mais alto que a tecnológia, o protótipo do kart nacional tinha pneus de carrinho de mão e motor de bomba d'água. "O Cláudio nos procurou porque nós éramos a única fábrica que produzia um motor dois tempos. Tivemos de adápta-lo, pois nosso modelo era mais utilizado em pequenas embarcações", lembra Mário de Carvalho, hoje proprietário da mecânica Riomar. O Idealismo que marcou os primeiros anos no novo esporta era movido principalmente pelo prazer das disputas de rua, na capital e no interior.
Segundo o ex-piloto o kart era uma forma de fazer amigos. " Nós corríamos pelo puro prazer da competição.", comenta Figueiredo. "Hoje, em dia, o garoto já senta no kart pela primeira vez com o objetivo de uma dia chegar na F1", compara. A Verdade é que a primeira geração de kartistas brasileiros vivenciou uma época muito mais "romântica" no esporte.
Os próprios pilotos faziam as vezes de mecânico e chefe-de-equipe, preparando o kart antes de entrar na pista. 

Primeiros Karts no Brasil, na foto, o piloto quase deitado...

Para um país que, apesar de já possuir nomes de destaque como Chico Landi, ainda não vivia da tradição de títulos mundiais, os novos pilotos que surgiam eram quase sempre incentivados por amigos, parentes ou pela curiosidade despertada por aqueles carrinhos.
O próprio Carol revela a maneira um tanto inusitada que o levou ás pistas. "Em sociedade com um amigo, comprei um kart a prestação no Mappin, Depois como meu sócio era muito pesado, fiquei sendo o piloto, enquanto ele era o chefe-de-equipe". E foi assim, a bordo de um kart de brinquedo, comprado em um magazine, que este ex-cavaleiro trocou o hipismo pelas corridas, tornar-se um dos maiores pilotos de sua época, tendo inclusive conquistado um título sul-americano.

Evolução Constante
Várias experiências eram feitas para melhorar o desempenho dos karts. Os primeiros modelos eram muito diferentes dos atuais. "A gente pilotava quase deitado", relembra Carol. Os chassis construídos na época eram inspirados nos modelos americanos, mais apropriados para provas de longa duração. Mário de Carvalho explica que somente após a inauguração do kartódromo de Interlagos os chassis passaram a seguir o padrão europeu. "Diminuiu a distância entre-eixos e os pilotos já não dirigiam tão deitados", acrescenta Mário, lembrando ainda que a esta época seu principal parceiro na construção de chassis era o jovem Emerson Fittipaldi, um dos primeiros pilotos a conseguir competir com menos de 18 anos, já que era preciso ter a carteira de habilitação para poder correr num simples kart.

Distância entre-eixos diminuiu, e o piloto não precisa pilotar tão deitado...

O Surgimento das primeiras pistas foi forçando o aperfeiçoamento de pneus e chassis. Enquanto nas pistas improvisadas na rua as curvas são feitas praticamente em 90 graus, um circuito como o de Interlagos oferece uma grande variedade de traçados, tangentes, zebras e outras dificuldades que exigem um equipamento mais acertado para poder ser rápido. Em busca da aderência, a cada ano eram lançados novos chassis e uma série de compostos de borracha para os pneus...

Disputas Acirradas
Desde o ínicio das provas de kart no Brasil, a competitividade marcou a categoria. Nomes como Wilsinho Fittipaldi, Carol Figueiredo, Maneco Cambacau, Afonso Giaffone e José Carlos Pace, entre outros, se destacavam nas provas de rua. Emerson Fittipaldi também se tornou rapidamente vencedor no kartismo. "O Emmo era um piloto quase completo que sabia ouvir o motor como poucos.", elogia Mário de Carvalho. "ouvir o motor", na gíria dos kartódromos, é saber a hora exata de regular a entrada de combustível no motor, por meio das agulhas do carburador. Por isso, os pilotos de kart costumam ficar boa parte da volta com apenas uma mão no volante. A outra é usada para "carburar" o motor, ou seja, mexer nas agulhas de alta e baixa do carburador.

Esse é o jovem Fernando Alonso se apaixonando por um kart...

O Kartismo também ia ganhando impulso fora de São Paulo, Carol destaca um piloto gaúcho, Clóvis Moraes, que era um dos melhores do Brasil em sua época. "Era uma grande alegria nas provas em que eu conseguia derrota-lo sem que ele enfrentasse problemas mecânicos". Ainda hoje o Rio Grande do Sul é a segunda força do kartismo nacional, acompanhado do Paraná, um dos que mais cresce no esporte.

Surge um garoto chamado Ayrton Senna
Com o final da década de 60, alguns dos principais pioneiros deixaram o kart, a maioria para correr de automóvel no Brasil, e outros, como Emerson Fittipaldi, foram para a Inglaterra, iniciar sua carreira na F-Ford. Já no ínicio dos anos 70 surgiam mais nomes que posteriormente teriam uma carreira de destaque na Europa, como Nelson Piquet, Roberto Pupo Moreno e Chico Serra. Aos poucos, o kart ia se firmando como uma verdadeira escola dos pilotos de competição, formando uma longa lista de jovens talentos que eram revelados anos após anos.

Nos anos 70 um tímido piloto assombrou os kartódromos por onde correu, seu nome: Ayrton Senna

O Kartódromo de Interlagos viu crescer ainda na década de 70 um de seus maiores pilotos em todos os tempos. Ayrton Senna da Silva era então apenas mais um garoto de talento, mas que insistia em treinar quase diariamente e cultivava, já nos tempos de kart, uma incurável obsessão pela vitória.
"O Ayrton tinha algo especial, era preciso muito empenho para enfrenta-lo.", desabafa Mário de Carvalho, cujo filho, Mário Sérgio, foi um dos maiores rivais de Senna nos tempos de kart. Outro forte adversário de Senna foi Walter Travaglini. No kart, Senna conquistou todos os títulos regionais, nacionais, além dos torneio sul e pan-americano. Só faltou ao seu currículo a conquista do Mundial de Kart, onde duas vezes sagrou-se vice-campeão. O mais importante é que, em todos os momentos de sua carreira, o tricampeão mundial não se cansava de exaltar o kart como o carro de corrida que mais lhe deu prazeres e alegrias. Não é a toa que, mesmo quando ja competia na F1, Senna costumava andar de kart com frequência, e chegou a construir um kartódromo com infra-estrutura completa na fazenda da familia em Tatuí, interior de São Paulo.

Senna no kart, em uma brincadeira com os japoneses, nota-se a alegria do tricampeão no final....

O álcool chega ao kart
A partir dos anos 70, o kartismo começava a ser levado cada vez mais a serio pelos jovens pilotos. O Brasil já possuía dois titulos mundiais na F1, conquistados por Emerson Fittipaldi, um jovem que anos antes estivera ali acelerando pelas curvas e retas do kartódromo de Interlagos. A medida que o país crescia no cenário internacional com as conquistas de Piquet já no príncipio da década de 80, crescia o número de adeptos do kartismo.
Tecnicamente, a principal mudança observada nesse período foi a introdução do álcool como combustível, o que permanece até hoje. Na verdade, o combustível utilizado é uma mistura de álcool com óleo dois tempos, lhe dando uma cor azulada, semelhantes á gasolina de aviação.

1981, surge um mito nos kartódromos alemães - Michael Schumacher, então com 12 anos...

A Partir de 1983, uma dupla de pilotos se destacou por ter protagonizado uma das mais famosas rivalidades da história do kart. Christian, a segunda geração dos Fittipaldi nas pistas, enfrentava um garoto de sobrenome Barrichello, travando inúmeros duelos e dividindo entre si os principais títulos. Rubinho conseguiu uma marca invejável: cinco títulos brasileiros consecutivos, o último deles ganho em 1988, na Bahia. Os dois pilotos deixaram o kart ( Rubinho em 89 e Christian um ano depois ), e chegaram á F1 tenho conquistado vários títulos no caminho. Mas nunca perderam uma oportunidade de treinar de kart em Interlagos.
No príncipio dos anos 80, aparecia na Alemanha um jovenzinho tímido chamado Michael Schumacher. Sem poder correr no seu país por ser menor de idade, Schumacher viajou para o país vizinho, Luxemburgo, para conseguir correr.
Em 1983, Schumacher foi campeão alemão de kart na categoria jr. e em 1984 foi campeão alemão e europeu de kart.

O Kartista Schumacher, então com 14 anos, dando entrevista...

A Febre do Kart Amador
Com o profissionalismo em alta no kartismo, os custos ficaram elevados de mais para o patamar brasileiro, e muitos pilotos veêm no kartismo amador ( kart de aluguel ) uma forma de sentir as mesmas sensações dos pilotos de antigamente e aproveitar a competitivadade que o kart proporciona.
Existem vários clubes de kart amador que organizam campeonatos e copas, com o objetivo de reunir o maior número de adeptos e dividir a alegria da velocidade.
Quem sabe, um dia, um campeão mundial de F1 possa sair de repleto celeiro de talentos que estão "escondidos" nestes campeonatos amadores, não será dificil isso acontecer futuramente. 
Assim como Ron Dennis fez com Lewis Hamilton nos anos 90, qualquer empresário pode garimpar jovens talentos, que por questões financeiras, acabam migrando para o kartismo de aluguel. Assim como no futebol existem as "peneiras" nas categoria de base, diríamos que, o kartismo amador hoje, poderia ser muito bem uma bela "peneira" para o profissionalismo.

Chassi TonyKart, para muitos, o melhor chassi de kart do Mundo...

Finalizando, um "pega" entre M. Schumacher e V. Liuzzi, claro, no kart.

Texto de Alexander Lopes
Revista Racing, Nº 4
Algumas modificações feitas por Cláudio Souza
Fotos: www.google.com.br/images
Vídeos: www.youtube.com.br


3 comentários:

Bruno Braz disse...

Gostei MUITO desse post. Parabéns!

Fernando Cataldo disse...

Eu acho mais interessante assistir "camera on board" em um kart do que em um F1! parece que da pra sentir mais a pista por um video desse tipo! Sensacional o pega entre Liuzzi e Schumacher!

O Kart, um esporte que tanto amamos e que foi pioneiro em tantas coisas!

Agradecemos a ele por Ayrton Senna e muitos outros!

Parabéns, hermano!

F-1 A.L.C. disse...

para mim sempre foi vizio. adoro partir de kart, mesmo nos 5,5

levei meu sogro, esportista compulsivo e obsesivo, a correr um día. cabou, o homen tá adicto ao kart. a vafa cidade nova que a gente visita temos que preguntar? aqui tem circuito?