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quinta-feira, 30 de maio de 2013

O 1º Rei da Era Turbo

Nelson Piquet, Bicampeão Mundial


Piquet faturou o bi em 1983 e foi o primeiro campeão com motor turbo.

Ao conquistar o bicampeonato mundial em 1983, Nelson Piquet inaugurou a fase dos campeões da era turbo. O título foi conseguido com o modelo Brabham BT52 equipado com motor BMW de quatro cilindros. Depois de alguns anos de resistência, os propulsores aspirados não conseguiram acompanhar a potência e a força do novo componente mecânico. O resultado foi um grande equilíbrio entre as equipes de ponta da época, gerando muitas disputas por posições durante as corridas. As provas da competitividade foram as vitórias de vários pilotos nos Grandes Prêmios da temporada. No total de 16 corridas do campeonato, oito diferentes pilotos vencedores. 

Mas a verdadeira disputa ficou mesmo entre Nelson Piquet e Alain Prost, que corria naquela época pela equipe Renault, com motor da mesma marca ( v6 turbo ). O piloto francês iniciava a sua saga de lutas contra pilotos brasileiros - anos mais tarde ele viria a disputar outros títulos com o próprio Piquet (vencendo-o em 1986) e também contra Ayrton Senna (1988,1989 e 1990).

Alain Prost, o rival na disputa do bicampeonato.
Os pit stops foram muito importantes na temporada de 1983. Exploradas de maneira diferente de hoje em dia - onde são feitas sob critérios bastante rigorosos - as paradas nos boxes envolviam, além da troca de pneus, o reabastecimento, mas apenas uma vez por corrida. Mesmo assim, a agilidade no trabalho realizado pelos mecânicos conseguia descontar ou somar tempo importante pera o resultado de pista. E este foi um dos trunfos de Nelson Piquet. A equipe Brabham sempre conseguiu fazer boas marcas de pit stop, devolvendo o brasileiro rapidamente ás pistas. O tempo de uma parada ficava em torno de 14s a 16s , mas o time de Bernie Ecclestone terminava o serviço na faixa dos 11s - tempos bem diferentes dos atuais.

Como em seu primeiro título, Piquet teve muito trabalho durante a temporada. Contando a vitória na etapa da abertura no Rio de Janeiro, o piloto da Brabham #5 fez uma temporada regular, somando pontos em dez corridas das 16 realizadas. A festa do público no circuito de Jacarépagua após o 1o lugar de Piquet no GP do Brasil mostrava que o país já repartia de igual para igual suas emoções entre o futebol e a Fórmula 1.

vitória no GP do Brasil em 1983

Nas ruas de Long Beach, nos EUA, um problema no acelerador tirou Piquet da prova. John Watson com McLaren TAG, venceu sua única corrida no ano. O circo seguiu para a Europa e Alain Prost começou a mostrar sua competitividade na corrida de seu país. Depois de fazer a pole-position - a primeira das três conquistadas no ano - o francês venceu a corrida. Piquet foi o segundo colocado. Em San Marino, a Ferrari mostrou que poderia também incomodar os dois favoritos. René Arnoux marcou a pole diante dos ' tifosi '. Mas foi Patrick Tambay, também da escuderia italiana, que acabou na frente, depois de uma boa briga contra o italiano Riccardo Patrese, da Brabham. Enquanto isso, Prost fazia mais seis pontos com um segundo lugar e igualava Piquet na classificação.

Patrick Tambay e a Ferrari venceram em Ímola.
Niki Lauda e a McLaren não foram competitivos durante 1983.
Keke Rosberg, campeão do ano anterior pela mesma equipe que disputava o campeonato, a Williams, ganhou nas ruas do principado de Mônaco. Piquet e Prost vieram logo atrás. Na descida para o contorno da curva Mirabeau, um verdadeiro desafio de coragem aos pilotos mostrava que, para dirigir aqueles carros de quase 800 cv de potência naquelas ruas estreitas, tinha que ter muita perícia. Na Bélgica e nos EUA, Piquet acumulou mais seis pontos com dois quartos lugares, construindo o título aos poucos. Prost venceu no circuito de Spa-Francorchamps e Michele Alboreto chegou a sua segunda vitória na carreira (em um total de cinco vitórias) no circuito de rua de Detroit, com a Tyrrell.

Keke Rosberg venceu em Mônaco, feito repetido pelo seu filho, 30 anos depois.
No Grande Prêmio seguinte, o da Inglaterra, em Silverstone, uma disputa direta na pista entre Piquet e Prost confirmava que o título deveria ficar com um dos dois pilotos. Foi também na Inglaterra que uma nova equipe estreou, a Spirit, tendo como piloto o sueco Stefan Johansson. Mas o principal atrativo do time era o motor Honda, que marcava a volta da marca japonesa às competições da Fórmula 1 depois de 15 anos (a última corrida da Honda havia acontecido no GP do México de 1968, quando existiu a equipe da montadora).

Spirit 201 Honda da temporada de 1983
 Na Alemanha, quando tudo parecia dar certo para Piquet, seu motor BMW quebrou a apenas três voltas do final, quando o brasileiro ocupava a liderança e Prost era apenas o quinto colocado. Eles seguiram disputando os pontos palmo a palmo nas duas corridas seguintes. Na Áustria, Prost venceu novamente e Piquet foi o terceiro. A temporada seguia para sua parte final e o piloto da Brabham sabia que era a hora de uma reação para se manter na disputa pelo título daquele ano. Naquele momento, Prost somava 51 pontos, contra 37 acumulados por Piquet. Arnoux vinha em terceiro com 34 pontos.

E foi no GP da Holanda, em Zandvoort (uma das pistas prediletas de Piquet), que os dois pilotos puderam travar uma bela disputa direta, mas que acabou com um toque, provocado por um erro de freada de Prost, ao tentar ultrapassar o brasileiro. O incidente jogou o brasileiro para a fora da pista e causou um problema na suspensão do Renault do francês, tirando os dois pilotos da prova. Prost admitiu o erro e Piquet mesmo disse que foi uma situação de corrida, frisando seu estilo de pensar - a favor de um modo agressivo de pilotar. Ele sabia que para conseguir controlar toda a "cavalaria" daqueles potentes motores turbo eram necessárias muita perícia e uma certa dose de risco. 

A batalha pelo título de 1983 - GP da Holanda

Depois da prova inicial do campeonato, Piquet só voltou a vencer no GP da Itália, em Monza, já na fase final da temporada. Ganhou a prova também em Brands Hatch, durante o GP da Europa, e garantiu assim uma arrancada fundamental para o bicampeonato. 

GP da Itália - vitória fundamental
Regularidade e vitórias pontuais, a receita do bicampeonato.
Depois destas corridas, a Fórmula 1 foi disputar sua última etapa de 1983 na África do Sul. Como em 1981, Piquet chegava em desvantagem no quadro geral de pontos, com Prost dois pontos à frente. René Arnoux, da Ferrari, também mantinha remotas chances de título. Fazendo mais uma corrida cautelosa, Piquet manteve-se na primeira colocação durante mais da metade da corrida, até que Prost abandonasse com problemas no turbo do motor. Restava apenas ao piloto carioca chegar entre os quatro primeiros para garantir o bi. Assim sendo, Piquet economizou equipamento, deixando seu companheiro de equipe Riccardo Patrese, assumir a ponta e também Andrea de Cesaris ultrapassa-lo. Acabou a prova em terceiro lugar, suficiente para conquistar quatro pontos e terminar o Mundial à frente do seu concorrente francês. Foi a vitória de um piloto dedicado e o dia 15 de Outubro de 1983, em Kyalami, marcou o bicampeonato Mundial de Nelson Piquet - que se constituiu no quarto título do Brasil na Fórmula 1 até então - e a confirmação de que o ídolo brasileiro ainda iria trazer muito mais alegrias para os amantes do automobilismo.

Cansaço e emoção na vitória em casa, Jacarépagua.

Durante a temporada, realizando testes de pneus.
Para muitos, o lance que definiu o campeonato, Zandvoort.
Dentro de seu habitat, antes de entrar na pista.



Relato Final: Nelson Piquet Soutomayor

"Para quem começou a correr só por gosto, atraído mais pela mecânica do que pela velocidade e com mais de 20 anos de idade, até que estava me saindo melhor do que a encomenda, mais real do que qualquer sonho. Mas garanto para vocês que nunca sonhei e nem fiz planos sobre minha carreira, tudo foi acontecendo naturalmente. Foi vivendo um dia após o outro, construindo pacientemente uma carreira com dedicação de sacerdote, paciência de monge, sacrifício de iogue, entusiasmo de criança, determinação de profeta e ouvido de afinador de piano. As peças, como que fazendo parte de um Lego especial, foram se encaixando perfeitas e quando vi tinha sido Campeão do Mundo de Fórmula 1 em 1981. Na minha terceira temporada completa! Isso porque em 1980 tinha deixado escapar o título só por falta de um soprinho de vento favorável. E o dia seguinte ? - Daí para frente sou obrigado a confessar que a gente acorda e percebe que não mudou nada na vida. Se a gente quiser ir em frente tem que continuar mergulhado, fazendo cada vez melhor mais bem feito aquilo que a gente propôs a fazer. Tá certo que você fica mais rico, mais famoso, mais bonito e mais esperto, mas se descuidar isso tudo rola por água abaixo se você baixar a guarda. Foi com esse espírito de desafio que partimos para o campeonato de 1982. Em vez de ficar deitado no berço explêndido e repetir o ano com o Brabham de motor Ford, fui desenvolver o Brabham com motor BMW turbo. Foi um ano de verdadeira montanha russa, cheio de altos e baixos, de grandes apreensões, guinadas bruscas, mas também de momentos de prazer inesquecível. O trabalho em conjunto com a BMW era de total cumplicidade, como se à minha familia Brabham tivesse vindo se juntar uma outra família, parente de primeiro grau, a BMW. Como funcionou? - Foi assim dizer a minha terceira fase na Brabham. Na Fase I em 1979/1980, ainda estava me adaptando. Ia todos os dias à fábrica e fuçava tanto que o Bernie Ecclestone (dono da Brabham na época) estabeleceu um número máximo de visitas (uma) por semana. Na Fase II, em 1981, era o bom filho dedicado que fez direito a lição de casa e ganhou o campeonato. A Fase III, então, em 1982/1983, mostrou todo um jeito novo de tratar a liga. Abandonamos a estrada aparentemente mais fácil e moldamos o futuro. A recompensa veio com o primeiro campeonato do Mundo para a BMW com seu motor turbo derivado de série e o primeiro campeonato a Michelin com seus pneus radiais. Bi, e agora? - Era só constatar que depois do segundo campeonato do Mundo você se sente exatamente igual de novo. Dentro da equipe a felicidade é geral, já que o trabalho é esse mesmo em equipe, e cada um sabe que contribuiu para a vitória. Aprendi muito nas minhas três primeiras fases da Brabham onde nos tornamos uma família. Desde o Bernie, com quem aprendi muito, passando pelo Gordon Murray, com quem pensei muito, cada uns dos mecânicos com quem trabalhei muito. Tem futuro? - O trabalho estava feito, o ponto de vista tinha sido demonstrado, a Fase IV na Brabham de 1984/1985 teve a cara de uma curva descendente, com cada um dos integrantes ocupados em novos projetos. O ciclo Brabham estava se encerrando e abrindo lugar para novos ciclos que não param de surgir na Fórmula 1. A mais completa e complexa, dinâmica e diligente, espetacular e esperta, milongueira e milionária categoria que existe e, para felicidade geral, insiste."


sábado, 11 de maio de 2013

Ron Dennis - O Poderoso Chefão

O Homem que moldou Ayrton Senna

Detalhes de uma relação tensa e fraternal entre Ron Dennis e Ayrton Senna.


Ayrton Senna desembarcou na McLaren em 1988 com alguns objetivos bem claros - e arrojados. Durante os três anos que competiu pela Lotus ele provou ser um piloto acima da média com um número espantoso de poles porém seu número de vitórias não faziam justiça ao seu enorme potencial. O engenheiro Gordon Murray, o desenhista Steve Nichols conceberam o McLaren Honda MP4/4, o carro que alterou todo esse panorama. 

Ron Dennis, o homem responsável por dar a Ayrton Senna e Alain Prost a responsabilidade de pilotar esta máquina, tinha um embaraçoso desafio: manter os dois melhores pilotos do Mundo em paz e manter sua equipe harmonizada mesmo com um clima de competição acima do normal.

Nesta matéria, Ron Dennis fala um pouco das qualidades, dos defeitos, do humor, das emoções e da motivação de Ayrton Senna. "Eu não acho que o Ayrton poderia mudar nada do que aconteceu. Ele perdeu sua vida fazendo o que ele mais amava, que era pilotar carros de corrida."

Em seis anos de parceria, Ron e Ayrton tiveram uma relação quase de pai para filho.

DENNIS EM...Negociando contratos com Ayrton Senna

"Quando nós iniciamos nossas negociações para 1988, percebi que o Ayrton se preparou mentalmente para aquela situação. Ele era um autêntico negociador e poderia gastar, como em sua pilotagem, dias pensando em como ser o melhor. 
E nós chegamos a um ponto em que, para fecharmos o contrato, estávamos parados por US$ 1 milhão e meio. Isto se transformou no ponto principal para concluirmos as negociações e ficamos parados semanas por causa disto. Na essência nós sabíamos que o Ayrton iria pilotar para a McLaren e ele queria sentar em um de nossos carros, mas isso estava se tornando uma queda-de-braço para ver quem cederia primeiro. Eu pensei: ' Eu vou dar este US$ 1 milhão e meio a ele porque o queremos na McLaren '. Mas nós nos preocupamos por este adicional, não queríamos perder recursos para o desenvolvimento do carro. 
Seu inglês não era bom naquele momento até que chegamos a uma conclusão fora do comum para os brasileiros, mas muito comum para nós ingleses. Iríamos decidir a sorte numa jogada de moeda (cara ou coroa). Eu levei um tempo para explica-lo como seria resolvido nosso impasse e ele não acreditou na minha sugestão, mas eu o expliquei que isso era um ato comum na Inglaterra quando chegávamos a um impasse. Explicamos as regras e ele aceitou. 
Eu praticamente tive que desenhar a figura de uma cara e uma coroa para ele poder decidir qual era sua escolha. Quando nós achamos uma superfície perfeita para lançar a moeda, nós praticamos algumas vezes para estarmos decididos. Aquela atitude iria decidir o destino de meio milhão de dólares. 
Nós lançamos a moeda e ela rolou, rolou e parecia não decidir para qual lado cair. Quando ela bateu na parede e descansou no chão, eu vi que tinha vencido a batalha. Me lembro como se fosse hoje, decidimos ali que o seu contrato seria de três anos e decidimos o destino de US$ 1 milhão e meio. Sabendo de sua extrema capacidade de competição, não acredito que outro teria decidido o destino de US$ 1 milhão e meio em uma jogada como essa, ele teve coragem."

Cara Ou Coroa decidiu o contrato de Senna e a  McLaren
DENNIS EM...Senso de humor de Senna

"Quando ele se juntou ao nosso time ele não tinha senso de humor algum. Inicialmente começamos um processo para tentar fazer ele entender quão bom é, em alguns momentos, relaxar e aproveitar uma bela gargalhada para aliviar a tensão do final de semana. Com certeza, isso se tornou um delicioso objetivo para Gerhard Berger quando ele se juntou a nossa equipe. Piadas e brincadeiras eram costumeiros na equipe e quando o Gerhard se juntou à equipe, isso se tornou extremo.
Certa vez o Ayrton começou a encarar as brincadeiras como uma competição de quem faria algo mais engraçado e sarcástico ao outro e isso praticamente entrou no espírito de toda a nossa equipe tornando o ambiente muito bom e harmonioso. Foi um capítulo muito bom do relacionamento que o corpo diretivo, técnico e os pilotos tiveram naquela época. 
A melhor brincadeira foi quando nós estávamos na Austrália e estávamos bolando algo para ver quem faria a maior sacanagem com outro. Como sempre eu e o Gerhard vencemos. O austríaco pegou o passaporte do Ayrton sem ele saber e nós, cirurgicamente, retiramos todas as suas fotos do passaporte e colocamos fotos da principal genitália masculina no lugar de suas fotos. Nós fizemos isso com tanto cuidado que era praticamente impossível de se perceber, a não ser olhar para sarcástica imagem. 
Quando o Ayrton voltou para a Europa, ele imediatamente pegou um avião para o Brasil com escala na Argentina. Seria a primeira vez que alguém solicitaria o passaporte a ele, e olharia para a foto desde que fizemos a alteração que ele não percebeu. Ele perdeu 24 horas na Argentina porque não o deixaram entrar no país até que seu passaporte fosse retificado. Ele nunca admitiu isso para ninguém por meses. Eu e o Gerhard choramos de tanto rir."

Gerhard Berger e Ayrton Senna, relação de irmãos travessos.
DENNIS EM...Senso de competição de Senna

"O senso de competição aguçado do Ayrton o influenciou em muitos momentos de sua vida. Nós estávamos no México em 1988 e nós nos sentamos para jantar e tinha um monte de pimentas sobre nossa mesa. Ayrton me disse que ele jamais poderia comer aquilo, então eu disse: "Eu aposto com você $ 1000 que eu posso comer todo o pote de pimentas."
Obviamente, ele topou. Eu sabia claramente que aquilo não iria me matar mas iria me queimar por dentro. Então eu comecei a comer tudo bem rapidamente - antes que a química da pimenta começasse a trabalhar - , e quando as reações começassem, já estariam todas em meu estômago e eu com os $ 1000 no meu bolso. Eu comi tudo bem rápido, para a sua surpresa. Depois de ter ficado chocado, o Ayrton concordou em me pagar os $ 1000 que tinha apostado.
Depois de meia hora bebendo água eu consegui neutralizar os efeitos da pimenta. Eu tomei um pouco de vinho e pensei: ' Foram os $ 1000 mais fáceis que ganhei na minha vida '. Mas depois de um tempo, os efeitos da pimenta vieram em forma de evacuação. Eu fiquei tão mal que tive que ir administrar o desconforto com remédios fortes.
O mais importante era não admitir que estava daquele jeito por causa das pimentas. Mas todos estavam esperando o efeito retardado das pimentas em mim. Na outra manhã todos me perguntavam se eu estavam bem, se eu tinha tido problemas de evacuação por causa das pimentas, eu praticamente esqueci dos problemas quando encontrei o Ayrton e caímos nas gargalhadas com o fim de tudo isso."

Era preciso ter coragem para ganhar do Ayrton, em tudo.
DENNIS EM...Senna nos treinos classificatórios

"Eu acredito que ele era do tipo que inventou a mentalização de uma volta rápida, pensava em todas as áreas de um carro que ele precisaria controlar, e como controlar e ser mais rápido em cada volta. Ele tinha uma imensa habilidade de conseguir os resultados nas adversidades, e isso em minha opinião, é a grande diferença de um grande piloto para um bom piloto, vencer com um carro inferior. Várias vezes nós sabíamos que tínhamos um carro com pneus que não durariam muitas voltas, ou que tinha algum ponto fraco que não lhe daria boas condições de conseguir um bom resultado. Nós vivemos numa era em que os carros tinham câmbios manuais e isso significaria que você poderia danificar uma relação e que isso poderia atrapalhar sua condução porque as marchas poderiam pular ou não entrar no momento certo. Ayrton era perfeito em lidar com estes tipos de problemas e trabalhar com a adversidade. O melhor, as mais belas vitórias do Ayrton foram conseguidas com carros em adversidade."

Em 1991 Ayrton teve sérios problemas com a McLaren, tricampeonato sofrido.
DENNIS EM...Mônaco 1988

"As emoções do Ayrton estavam exaltadas após a corrida em Monte Carlo de 1988. Eu nunca tinha o visto ou escutado sobre ele estar tão frustrado ou exaltado como ele estava naquele dia. Ele sabia que tinha perdido a corrida por uma perda de concentração e que isso foi fundamental para que ele batesse na entrada do túnel. Ele não conseguia lidar com aquele erro. Ele atravessou a avenida atrás do traçado e foi para o seu apartamento e ficou por lá umas duas ou três horas até que finalmente desse sinal de vida. Mas quando ele apareceu, estava extremamente desconsertado, e muito triste com o seu desempenho e ficou se desculpando com a equipe por um bom tempo."

Um Erro que transformou o Piloto Ayrton Senna
DENNIS EM...Suzuka 1990

"Todos nós temos fraquezas e eu acho que o Ayrton tinha uma manual particular sobre este assunto que disse: ' Olho no olho, dente por dente '. Eu acho basicamente que ele estava tentando justificar o seu comportamento e que não estava muito confortável com o ocorrido mas ele estava se sentindo finalmente vingado e que seria apenas uma página virada no seu manual de fraquezas. Ele não estava muito confortável como disse, mas estava desfrutando daquele momento para pensar nos valores. Era um resultado justo ? Era a melhor forma de se conseguir o resultado ?.
Em uma conversa que desenvolvemos depois do ocorrido naquele dia, nós não estávamos percebendo que tínhamos entrado no jogo da ' vitória a qualquer custo '. Eu não acho que ele estava se sentindo orgulhoso no seu julgamento particular: foram um dos poucos momentos na McLaren em que ele não se sentia orgulhoso de uma conquista. Eu acho que no fim nem ele conseguisse explicar o que aconteceu, fora um impulso, um sentimento que veio à tona e que foi impossível de segurar."

Suzuka 1990, sentimentos confusos se seguiram após este episódio.
DENNIS EM...Senna deixando a McLaren

"Mesmo com seus amigos em particular, seu sentimento não era positivo sobre esta questão. Naquele período ele estava super desapontado por causa que seus pedidos salariais para 1993 não estavam sendo atendidos. 
O time trabalhou arduamente para encorajar os patrocinadores para conseguir mais dinheiro para suprir os pedidos do Ayrton, mas naquele ano(1993) e no anterior nós tivemos que tirar muito dinheiro da companhia para atender aos pedidos dele. Nós, literalmente, tiramos dinheiro para o desenvolvimento dos carros para atender aos pedidos salariais dele enquanto nosso maior concorrente tinha todo o dinheiro para o desenvolvimento do carro enquanto seus pilotos ganhavam relativamente pouco perante o Ayrton. 
Então, de minha parte - talvez injustamente - senti que perdemos dois anos de desenvolvimento do carro para atender as solicitações financeiras do Ayrton, e ele pôs a culpa no carro para que seus pedidos fossem elevados. E aquilo foi um processo super negativo em nossa relação. Eu tirava dinheiro do desenvolvimento do carro para dar ao Ayrton, e ele em contrapartida, colocava a culpa nos carros para pedir mais dinheiro. 
A parte positiva foi que eu entendi a sua ambição, ele queria estar sentado no melhor carro para ter as melhores condições de vitória e não aceitava ganhar menos para ter menos condições de vencer."

Sua equação: Ganhar mais + píor carro // Ganhar menos + melhor carro
DENNIS EM...Senna após a Fórmula 1

"Eu não acho que o Ayrton tinha um plano de parar mas claramente ele tinha um objetivo sobre o Brasil. Ele enfrentava longas distâncias para estar no Brasil, mesmo que somente por um ou alguns dias. 
Eu me lembro de uma longa jornada de 24 horas que ele enfrentou para estar apenas 1 dia no país. Eu lhe perguntei: ' Por que você está se desgastando tanto ? você tem algum compromisso importante ? ' e ele me respondeu que não, que queria estar no Brasil, mesmo que por um período curto. 

Quando ele comprou uma aeronave, que era um British Aerospace 125, ele costumava voar de três a quatro vezes para o Brasil. E ele não se preocupava, o importante era estar no país. 

Ele era orgulhoso de ser brasileiro e tinha muito forte em sua mente que precisava fazer algo para ajudar os mais necessitados em seu país. Ele acreditava que podia mudar o país e ele apreciava almejar algo. Mas dizia que era muito difícil mudar as coisas no país porque o limitavam, mas ele acreditava que poderia fazer algo, e realmente ele faria a diferença.

A Fundação Ayrton Senna foi uma ideia sua e não de sua irmã. Ela apenas seguiu as idéias do Ayrton e tornou realidade um sonho que ele almejava conseguir.

Ayrton Senna e o seu Brasil, patriotismo puro e amor ao seu país.
Neste 1º de Maio de 2013 completamos 19 anos de sua partida, esperamos que o legado do esportista Ayrton Senna da Silva jamais seja esquecido por seus compatriotas e que, seja no esporte ou seja na vida, possamos seguir seus exemplos. Era um ser humano, falível, com fraquezas e muitos erros, mas que antes de tudo, tinha orgulho de ser brasileiro e de desfraldar sua bandeira, além de ser um incorrigível perfeccionista, detalhista e que não aceitava perder, a vitória era o seu combustível, sua motivação. 

Bibliografia
Revista Autosport Magazine
Vol 176
Nº 4

domingo, 25 de novembro de 2012

Tricampeão Mundial de Fórmula 1

Sebastian Vettel continua sua saga em busca dos números conquistados por Michael Schumacher



Sebastian Vettel, 25 anos, é o mais jovem tricampeão mundial de Fórmula 1. Ele acabou de entrar no seleto grupo de "gigantes" tendo ao seu lado "mitos" como Ayrton Senna, Nelson Piquet, Jackie Stewart, Jackie Brabham e Niki Lauda.

Na frente do alemão apenas Alain Prost, tetracampeão mundial, Juan Manuel Fangio, pentacampeão mundial e o recém aposentado Michael Schumacher, heptacampeão mundial. A conquista deste ano teve contornos épicos por causa do extremo equilíbrio, talvez o mais equilibrado campeonato mundial já visto na Fórmula 1 entra para a história pelas constantes disputas dentro da pista, pelos constantes toques entre os pilotos, a batalha técnica entre Red Bull, McLaren e a Ferrari e pela confirmação da grande geração de pilotos que temos atualmente.

Sebastian Vettel se sobressai neta nova geração. O garoto prodígio estreou na Fórmula 1 em 2007, isto significa que ele tem "apenas" cinco anos de ativa na categoria, tendo conquistado três títulos mundiais consecutivos, sem contar a grande quantidade de poles e vitórias conquistadas na sua curta carreira na categoria até então.

Indianapolis, 2007 - Interlagos, 2012 - 26 vitórias / 35 poles / 3 títulos mundiais
Neste ano brotou a tese de que Sebastian Vettel detêm este números impressionantes apenas porque pilota um carro acima da média. Temos que considerar que, de fato, o conjunto RBR-Renault é o melhor e mais regular da atividade, mantendo um nível elevado nos últimos três anos e o projeto assinado pelo "mago" Adrian Newey realmente ajudam o jovem piloto a conquistar seus números porém o equilibrio demonstrado neste ano, as dificuldades enfrentadas pelo alemão em várias circunstâncias e as pressões sofridas até a última volta da temporada comprovam que, Sebastian Vettel possui maturidade e excelência no seu nível técnico como piloto. 

Fernando Alonso fez um belíssimo trabalho nesta temporada, fez o que pôde com um equipamento inferior mas a habilidade de Vettel aliada ao conjunto RBR-Renault-Newey foram determinantes para o resultado final desta emocionante temporada.

Fernando Alonso, segundo vice-campeonato na carreira.
Ficam os destaques também para Kimi Räikkonen que retornou à categoria máxima do automobilismo de forma brilhante, mesmo sem ter um equipamento técnico que lhe permitisse ir além, conseguiu ser constante e conseguiu uma vitória e como consequência foi o merecido 3º colocado no Campeonato Mundial. Lewis Hamilton, que se não tivesse tido tantos problemas de confiabilidade no seu McLaren teria lutado pelo título mundial, obteve ótimos resultados e também foi um dos destaques do ano. Opinião particular, fez uma péssima escolha ao trocar a McLaren pela Mercedes GP. Espero que ele consiga elevar o nível apresentado pela equipe alemã para a temporada 2013.

Raikkonen, 1 vitória - 3º lugar 

Hamilton, 4 vitórias - 4º lugar
Dos brasileiros podemos destacar a ótima recuperação de desempenho do Felipe Massa na segunda parte da temporada. Após uma péssima primeira parte aonde pouco fez e todos davam como certa sua demissão da equipe italiana, Felipe se recuperou, pontuou regularmente, renasceu para a categoria e teve seu contrato renovado por mais um ano com a Ferrari. O pódio no GP do Brasil foi merecido pela sua recuperação. 

Infelizmente Bruno Senna não deixou uma imagem muito positiva. Foi constantemente superado pelo seu companheiro de equipe nos treinos classificatórios e apesar de sua regularidade em corridas, não demonstrou muito arrojo para ir além e foi afobado em muitas ocasiões,  e sua afobação quase resultou na definição do campeonato mundial no incidente entre ele e Vettel no GP brasileiro. Sua saída da Williams deve ser oficializada em breve e suas opções para o próximo ano são Force India, Caterham ou Marussia.

Felipe Massa, pódio no GP do Brasil e a recuperação da confiança.
 E o GP do Brasil assistiu pela última vez a apresentação do lendário Michael Schumacher, que aos 43 anos encerra sua brilhante carreira na F1. Seus últimos sofríveis anos na Mercedes GP não apagam sua dourada carreira recheada de títulos, recordes, polêmicas e constatação de que, se Ayrton Senna foi considerado o melhor piloto de todos os tempos pela grande maioria da opinião mundial, Michael Schumacher é o maior piloto de todos os tempos pelos seus números conquistados, pela sua vasta coleção de recordes, pela recondução da famosa equipe Ferrari às vitórias e por sua extrema dedicação e comprometimento demonstrados ao longo dos anos pelo alemão na sua excepcional carreira, Auf Wiedersehen Schumacher!


por Cláudio Souza
@claudiosgs

crédito de imagens: GP Update

terça-feira, 20 de novembro de 2012

McLaren 1988 vs. Ferrari 2004

Qual foi o melhor ?



A Fórmula 1 de tempos em tempos apresenta carros realmente especiais, mas apenas dois, talvez, foram tão dominadores durante toda a temporada como o McLaren MP4/4 de 1988 e a Ferrari F2004 de 2004. E quais são seus ingredientes mágicos? E por que esses dois ficaram acima de seus oponentes?

A Temporada perfeita de F1 - vencer cada corrida em um ano, o verdadeiro Santo Graal da Fórmula 1 - nunca foi alcançada. Ferrari, Chapman, Barnard, Dennis, Williams, Head, Newey, Brawn, Fangio, Stewart, Clark, Senna, Prost, Schumacher: todos líderes naturais e que aceitaram este desafio. No entanto, sem exceção, todos falharam.
Mas dois times chegaram muito perto. Em 1988, a McLaren chegou tão próximo que hoje seus esforços viraram lenda. Quinze vitórias em 16 corridas. Em 2002 a Ferrari bateu a McLaren obtendo 15 vitórias, mas desta vez em 17 corridas; assim Ron Dennis ainda mantêm o recorde por uma fração.
Em 2004, a Ferrari viveu situação semelhante. Mas a temporada perfeita foi por água abaixo logo no sexto round, quando Michael se enroscou com Montoya no túnel de Monte Carlo dando vitória a Jarno Trulli, e mais tarde, com a vitória de Raikkonen com a McLaren em Spa e de Montoya com a Williams no Brasil.
Na contabilidade final, foram 15 vitórias em 18 provas disputadas e a F2004 não conseguiu realizar o feito do McLaren MP4/4 como o carro de maior sucesso de todos os tempos.
Tecnologicamente, no entanto, essas máquinas estão separadas por longos 16 anos. Se 16 dias podem ser um tempo enorme na F1, imaginem 16 anos... Mas eles compartilham similaridades cruciais: potência e confiabilidade, estabilidade das equipes e consistência do processo de design dos carros.
Houve exceções notáveis, mas geralmente um carro de corrida de extremo sucesso é produzido por meio de uma evolução natural, e não por uma revolução radical.

CHASSIS: invenção e perfeição
McLaren MP4/4
Ferrari F2004
 O MP4/4 utilizava uma derivação do chassi em fibra de carbono molde macho de John Barnard (a fibra de carbono é moldada em torno da forma principal). De volta a 1981, quando Barnard desenhou esse incrível monocoque, ele era tão revolucionário que muitos torceram o nariz. Naquele tempos os times usavam placas de aluminio. Em termos de rigidez torsional tais chassis chegavam à região de 830 kgfm por grau de flexibilidade longitudional.
O primeiro monocoque de carbono de Barnard era muito mais rígido, entregando 2000 kgfm por grau de flexibilidade, enquanto 25% mais leve do que produzido em aluminio. A rejeição inicial era substituida por um louvor incondicional.
O futuro havia chegado. E enquanto o resto do paddock ponderava como reagir (e alguns times, incluindo a Williams, levaram quatro anos), a McLaren, temporada após temporada, calmamente seguia o negócio de aprimorar sua obra-prima. Era forte, leve, feia como o pecado.
O principal réves do molde macho era que o lado "final" do monocoque ficava para dentro, enquanto a face exterior do barril era fraca. Isso significava que outras placas tinham de ser afixadas para dar ao carro qualidades aerodinâmicas. Alguns podem considerar isso uma vantagem: certamente permitiu ao time facilmente retrabalhar seu pacote aerodinâmico, mas itens adicionais significam mais peso e, claro, a idéia é ter tudo pronto antes do carro ser levado à produção. 
McLaren MP4/1 - revolução da fibra de carbono
O trabalho composto trilhou um longo caminho desde 1988. Agora todos os monocoques usam a técnica molde fêmea, bastante parecida com as duas metades de um ovo de páscoa. As linhas aerodinâmicas formam parte do molde do chassi. E monocoques contemporâneos são incrivelmente fortes. A Ferrari não divulga números de rigidez torsional da F2004, mas estima-se que esteja na casa dos 3250 kgfm por grau.
Os monocoques do MP4/4 e da F2004 tem aproximadamente o mesmo peso - em torno de 40 kg. O "barril" da Ferrari poderia ser muito mais leve, mas os regulamentos atuais sobre testes de impacto lateral e estruturas deformáveis determinam que o chassi contemporâneo deve dobrar mais em seus flancos.
E exatamente como a McLaren fez com a sua linha MP4/1/2/3/4, a Ferrari continua a refinar seu chassi ano após ano. Eles renegaram a idéia de dupla quilha adotada pelas Williams e pela McLaren, mantendo-se fiéis ao conceito de quilha única que conhecem bem. Isso já lhe rendeu cinco campeonatos consecutivos de pilotos e construtores.     
      
Motores: de 680 cv a 910 cv

Motor Honda RA168e V6 turbo
Motor Ferrari 053 V10 aspirado
Talvez a diferença mais significativa entre o MP4/3 e o MP4/4 seja sua escolha de motor. Sai o TAG/Porsche e entra o excepcional Honda RA168E. Embora novo para a McLaren, esse v6 em 80º, equipado com dois turbos IHI, era uma evolução cuidadosa do motor que havia impulsionado a Williams e a Lotus em um total combinado de 11 vitórias em 1987. Nesse período, a Williams havia conquistado os campeonatos de construtores e pilotos. Claramente, a Honda não era boba e causava inveja no pit. De qualquer maneira, a decisão um tanto abrupta de trocar a Williams pela McLaren certamente causou espanto - mas essa é outra história. O final do romance foi o MP4/4 equipado com um motor intensamente testado (ultraconfiável), vencedor, com um campeonato mundial no currículo. 

Mas há mais: 1988 foi o último ano da era turbo. A FIA os queria longe - muito potenstes, diziam - e os proibiu para 1989. Além disso, esse derradeiro ano recebeu maiores restrições ao combustível nos carros turbo, limitando-os a 150 litros (redução de 45 litros) e a pressão do turbo foi diminuída de 4.0 bar para 2.5 bar. Isso teve efeito dramático na potência: em ritmo de corrida o Honda de 1988 caiu de 890 cv para 680cv. Entretanto, essa diminuição teve como efeito positivo maior confiabilidade.

McLaren MP4/4 por Neil Oatley

Se os engenheiros da Honda conseguiam construir um motor confiável com 4.0 bar, a redução para 2.5 bar lhe possibilitaria fazê-lo à prova de bala. E foi assim... ou quase. A equipe sofreu apenas uma quebra na temporada - Prost em Monza. E essa quebra, combinada com o abandono desnecessário de Senna ao se enroscar com Schlesser, arruinou a temporada perfeita da McLaren. Eu nunca trabalhei na McLaren, mas ainda hoje, tenho vontade de chorar com o fato.

O regulamento banindo o turbo permanece em vigor, claro, por isso o motor da F2004 desenhado por Gilles Simon, série 053, um v10 3,0 litros em 90º com 910cv de potência na traseira da Ferrari é naturalmente aspirado. Tudo bem, uma pequena fração de pressão positiva é gerada pelo fluxo de ar, mas nada expressivo - 1.0 ou 1.5 psi, com sorte. Entretanto, o que o 053 não tem em pressão, compensa em rotações: 19.200 RPM ante 12.500 RPM do Honda. Não é o dobro, mas certamente segue nessa direção.

E de novo, como o MP4/4, a F2004 continua a exibir eficiência infalível. O mais próximo que chegaram de um abandono por falha de motor em 2004 foi um cano de escape rachado do carro de Schumacher em Barcelona. Ele ainda venceu a corrida, com Rubens em 2º. 

Mas o que sempre me surpreende ao comparar os méritos desses motores é seu tamanho físico relativo: o V10 3.0 é significantemente menor do que o V6 1.5, ainda que o motor Ferrari tenha o dobro de volume e mais 4 cilindros. Isso é um progresso incrível.


TRANSMISSÃO: pequena e grande

Em 1988 os componentes de transmissão eram manufaturados com liga de magnésio. Eram grandes e pesados, talvez com 60 kg, o dobro dos carros atuais. Havia três razões: a embreagem era muito maior; o pacote de embreagem da F2004 caberia na palma da sua mão, com quatro polegadas aproximadamente, quase o tamanho de um Big Mac. 

Em segundo lugar, em 1988 as relações de marcha, varetas, coroa, pinhão e outras peças, eram muito maiores do que as de hoje. A qualidade do material era inferior, o que significava que os dentes das engrenagens permitiam pouca redução em tamanho na área de contato. Hoje em dia, maquinas operadas por computador podem produzir peças mais intricadas e delicadas. Delicadas, mas não fragéis. 

Finalmente, a carcaça da transmissão do carro de 1988 continha o reservatório de óleo. O lubrificante é levado sob pressão para o motor, então é limpo e levado de volta para o tanque. Tudo mudou. O reservatório de óleo da F2004 é alocado entre a parte de trás do chassi e a parte da frente do motor.

Isso leva a massa do óleo para a frente, ajudando na distribuição de peso do carro, e permitindo à carcaça de transmissão ser significantemente menor. E magnésio está ultrapassado. O material em voga em 2004 é titânio ou carbono. A F2004 usa liga de titânio, processo mais longo e custoso, porque o titânio é dificil de trabalhar, mas vale o esforço. E os resultados são espetaculares. A Ferrari cobre a carcaça de transmissão com carbono, dando apoio adicional à suspensão e à montagem do motor.

volta onboard - Michael Schumacher - Ferrari F2004

Osamu Goto, o "mago" da Honda
SUSPENSÃO:  do aço ao carbono

Depois do motor a maior diferença entre o MP4/3 e o MP4/4 foi uma mudança na suspensão dianteira. Enquanto os carros anteriores usavam braços empurrados, o MP4/4 passou a utilizar braços arrastados.

Essa geometria permitiu colocar os amortecedores e molas mais baixos no carro - o que sempre colaborou para o desenho de um carro de corrida; ajuda a abaixar o centro de gravidade e beneficia a estabilidade e a dirigibilidade.

Falando como mecânico, sempre detestei suspensão de braços arrastados. É um pesadelo trabalhar com ela; não se vê coisa alguma, não se alcança coisa alguma e suas mãos se cortam. Horrível. Entretanto, nesse caso particular, após olhar o arranjo de suspensão dianteira do MP4/3, parece que a decisão da McLaren mudar para braços arrastados foi sábia; deve ter promovido uma melhora.

Todos os braços da suspensão do MP4/4 eram de aço especial para dar a eles coloração preta. Nenhuma peça de carbono era usada em 1988; levariam outros cinco anos até que os designers se sentissem seguros o bastante para trabalhar com a idéia. 

E eles brincaram bastante, porque a F2004 não tem aço algum em seus braços da suspensão. Tudo é carbono. Braços arrastados, graças a Deus, estão fora de moda: todos os carros de 2004 usam braços empurrados - de carbono, naturalmente. O movimento de volta à eles foi possível porque tudo tornou-se tão menor e mais leve que não há problemas em se ter componentes montados mais altos no carro.

Ferrari F2004, dotados de suspensão de carbono
Molas pesadas se foram também. Barras de torção, de rolagem e amortecedores do F2004 se parecem mais com peças de relógio do que peças de suspensão. Tudo foi otimizado e com o menor peso e dimensões, foi possível retrabalhar o seu posicionamento e direção na montagem do carro.

AERODINÂMICA: parafusada ou integral?

Sempre gostei das linhas do MP4/4 e o abandono do arranjo de braço empurrado dos anos anteriores permitiu à carroceria em torno das pernas do piloto ser levada para dentro; com isso, os flancos do carro de 1988 são muito mais limpos. O nariz foi afilado.

MP4/4 - grip mecânico
Mais adiante, o fato do MP4/4 continuar a usar peça adicional na carroceria para cobrir o monocoque de carbono permitiu à McLaren esconder os parafusos da suspensão dianteira montada sobre o chassi, e assim protegê-lo do fluxo de ar. Á época era comum deixar esses itens expostos; os suportes eram parafusados diretamente no lado de fora da estrutura. Não se prestava atenção a detalhes como esse. Atualmente, a idéia de se expor parafusos e porcas da suspensão ao fluxo de ar seria considerada ridicula. Toda a montagem nos carros atuais acontece dentro dos trilhos de carbono do monocoque, e qualquer fixação do lado de fora do chassi é desenhada para desviar corrente de ar; nada acontece por acaso.

Com a FIA constantemente reescrevendo os regulamentos para acabar com o downforce, os detalhes aerodinâmicos da F2004 são, e devem ser, extremamente impressionantes. Basta comparar o tamanho da asa traseira do McLaren com a Ferrari. Absolutamente diferentes. A F2004 tem aerofólio muito menor, e o spoiler dianteiro e seus defletores são colocados muito acima da pista do que os mesmos da MP4/4. Além disso, a Ferrari tem vão livre de 50mm sob o chassi, e difusor significativamente menor - que reduz a eficiência aerodinâmica e velocidade em curvas.

F2004 - grip aerodinâmico
Com tudo isso, o nível de downforce entre os dois carros é pouca coisa diferente. Os aerodinamicistas da Ferrari trabalharam tudo, recuperaram todo downforce perdido e reduziram o arrasto do carro ao mesmo tempo (as asas menores são parte disso). Estude a F2004 e você perceberá que a linha de frente da asa dianteira foi deixada sem pintar. Não por acidente. O departamento de aerodinâmica não quer que a tinta prenda pedaços de pedra que agiriam adversamente sobre a eficiência da asa.

PNEUS

Não havia guerra de pneus em 1988. Havia um fabricante de pneus (Goodyear) e três compostos: macio, médio e duro.
Em 2004, com a Bridgestone e a Michelin, a variedade de compostos e de construções mudavam em uma semana. No caso da Ferrari isso significa que a Bridgestone trabalha como parte integrada do desenvolvimento do F2004.

Diferentes eras, diferentes carros. Com 16 anos de diferença, sob regras técnicas diferentes, o MP4/4 e a F2004 foram mesmo carros incrivéis.

Lewis Hamilton testa a McLaren MP4/4

por Steve Matchett
Revista Racing, nº 160, ano 8
12/2004