sábado, 3 de março de 2012

O que deu errado no FW16 ?


 Os fatores técnicos, políticos e comerciais que levaram a Williams a se perder no projeto do FW16.

Fevereiro de 1994. o mundo da Fórmula 1 aguarda ansiosamente a estréia de Ayrton Senna no carro azul da Williams Renault. Todos aguardam uma temporada monótona, com Ayrton Senna vencendo corrida atrás de corrida sem rivais à altura, já que Alain Prost tinha encerrado a carreira na última corrida da temporada anterior.

A Williams era a melhor equipe do mundo na época e tinha o melhor projetista do mercado - Adrian Newey. Além de dispor do melhor orçamento, tinha a máquina mais sofisticada da F1. A FIA, preocupada com o possível domínio avassalador da equipe de Grove, decidiu banir todos os recursos eletrônicos embarcados nos carros. Com isso, ficava proibido os freios ABS, os sistemas de aceleração eletrônica fly-by-wire, os câmbios automáticos e as famosas suspensões ativas comandadas por sensores eletrônicos.

Com o banimento de todos os recursos eletrônicos, a Williams se viu sem suas principais armas para a construção do novo carro. Seus dois últimos carros vencedores, o FW14b e o FW15c, na verdade eram evoluções aerodinâmicas do FW14 de 1991. Se compararmos os carros de 1991, 1992 e 1993 notaremos poucas diferenças. O que difere um carro do outro é exatamente a eletrônica embarcada.

 Williams FW14 - 1991

Williams FW14b - 1992

Williams FW15c - 1993

O carro de 1991 era muito bom aerodinamicamente, muito baixo, dotado de câmbio semi-automático, dificultou ao máximo o título conquistado pela McLaren. Esse carro ainda não possuía a suspensão ativa, então em circuitos muito ondulados, o carro não tinha a mesma força aerodinâmica, já em circuitos lisos, com o perfil baixo, o carro era mais rápido nas retas e principalmente nas curvas.

O carro de 1992 aparentemente não possuía nenhuma alteração, mas dotado de sofisticados recursos eletrônicos e principalmente com uma suspensão ativa perfeita, o carro se tornou imbatível. Com freios ABS, aceleração eletrônica, câmbio automático e suspensão ativa, Adrian Newey junto de Patrick Head, conseguiram construir um carro à prova dos erros de Nigel Mansell. Título fácil de pilotos e construtores.

 O complexo sistema de suspensão ativa da Williams FW14b

Suspensão ativa em funcionamento

Em 1993, o carro teve pequenas alterações aerodinâmicas mas que não prejudicaram o desempenho do carro. Com os mesmos recursos eletrônicos e a tendência do bico e chassi baixo, o carro contava com um potente v10 Renault que em retas conseguia impor velocidade aos v12 Ferrari e os v8 da Ford.

O ERRO

Durante a temporada de 1993, a FIA decide banir os recursos eletrônicos para a temporada seguinte. Adrian Newey e Patrick Head tiveram que começar um projeto praticamente do zero.

A Contratação de Ayrton Senna e o alto investimento dos novos patrocinadores (leia-se Rothmans) pressionaram ainda mais a cúpula técnica da equipe a não errar.

 Adrian Newey e Ayrton Senna em 1994

Adrian Newey trouxe o conceito do carro baixo desde os seus tempos de March. Aplicou o mesmo conceito no Williams, que junto dos recursos eletrônicos, resultaram numa máquina quase perfeita. 

Com um perfil baixo e com as suspensões ativas trabalhando, o carro mantinha em todos os circuitos do Mundo, a mesma distância do chão (carro-solo). O downforce produzido nas retas e curvas eram praticamente os mesmos, e consequentemente, a velocidade era maior. Além do mais, o carro era mais preso ao chão por causa do grip elevado dos pneus.

Em circuitos onduladíssimos como Interlagos, Kyalami na Africa do Sul ou Hungaroring, seus carros eram dóceis, diferentemente dos carros com suspensões tradicionais, que pulavam a cada ondulação, fazendo com que o carro ficasse arisco e perigoso.

Onboard - Nigel Mansell - Williams FW14b

Onboard - Ayrton Senna - McLaren MP4/6b

A Williams teve muito pouco tempo para inventar um carro praticamente do zero, então construiram o FW16 com base nos dois carros anteriores, o FW14b e o FW15c.

O grande agravante foi que construiram um carro de conceito baixo sem os recursos eletrônicos, então o Williams perdeu sua principal eficácia, a força aerodinâmica. O FW16 tinha nascido errado.

Senna testando pela 1a vez o FW16 - dificuldade nas curvas

Primeiras impressões do FW16

Senna e Frank Williams - Ayrton demonstrou pouca alegria em 1994.

O sonho de pilotar a Williams tornava-se um pesadelo para Ayrton.

Quando Ayrton Senna sentou pela primeira vez no FW16, ele percebeu que o carro não tinha nascido bem. É notório pelas imagens da câmera do carro do brasileiro a dificuldade de se fazer as curvas rápidas. Senna saiu preocupado do carro.

O carro que ele tanto sonhara era inguiável nas suas próprias palavras. Tinha um ótimo motor mas nas curvas era incontrolável.

O Circuito do Estoril possuía algumas ondulações, e essas mesmas demonstraram a Ayrton Senna o quão errático tinha nascido o FW16.

Relato de Berger sobre sua conversa com Senna em 94 sobre o FW16

AFLIÇÃO

Percebendo que o carro era inguiável, Ayrton Senna logo demonstrou sua insatisfação com o novo carro. O cockpit era diferente de todos os carros que Ayrton tinha pilotado até então.

O volante ficava dentro do carro, diferentemente dos Toleman, Lotus ou McLaren, cujo o volante ficava para fora do habitáculo, apenas protegido por uma película de plástico duro.

Com isso, a mão raspava nas laterais do carro causando desconforto. Além do cockpit ser bastante apertado.

Onboard - McLaren MP4/8 - volante fora do habitáculo

Onboard - Williams FW16 - volante dentro do habitáculo

A falta das suspensões ativas e as ondulações do circuito de Interlagos mostraram ao Mundo que o carro da Williams não era o mais acertado.

Ainda refletindo a ótima fase de 1993, Ayrton Senna conseguiu a pole-position graças a sua extrema habilidade. Na corrida sofreu com o assédio do Benetton de Schumacher, acabou rodando após voltar atrás do alemão nas paradas dos boxes, e abandonou a corrida.

MUDANÇAS

Senna não estava satisfeito. Seu abandono no GP do Brasil foi um balde de água fria. Ayrton estava incisivo quanto as alterações no carro.

Pediu que o volante fosse colocado mais para frente para que suas mãos não raspassem nas laterais do carro. Já que a equipe não teve tempo hábil para uma mudança estrutural, porém pressionada e preocupada com os pedidos de Senna, buscou na solda da barra de direção uma solução eficaz.

Feito a solda, a barra foi ampliada e o volante ficou mais próximo do piloto, evitando que suas mãos raspassem nas laterais. Erro fatal.

Além dos pedidos técnicos, Ayrton tentava motivar a equipe. Ele notara que a equipe Williams tinha um "ar" diferente da McLaren. Era uma equipe mais fechada e "fria" nos relacionamentos. Senna pediu empenho à equipe e prometeu que a situação iria melhorar.

 A solda mal feita - erro provocado pela pressão por mudanças?

DESCONFIANÇA

Todos sabiam que Adrian Newey tinha errado a mão no projeto, então todos na equipe estavam correndo contra o tempo. Mas Ayrton Senna confidenciou aos seus amigos mais íntimos o que mais lhe incomodava. Não era o inguiável Williams, e sim, o fora-da-lei Benetton B194 de Michael Schumacher.

 Benetton B194, Senna desconfiava que o carro possuía recursos eletrônicos.

Para Ayrton, o carro da Benetton era dotado de sistema de controle de tração escondido, recursos eletrônico proibido pela FIA para 1994. Schumacher largou mal no Brasil e muito bem no Japão, e a velocidade da Benetton pegou todos de surpresa.

Não era apenas esse recurso que Ayrton desconfiava. Para ele, outros recursos estavam escondidos dentro do B194. Ayrton chegou a confidenciar sua desconfiança para membros da Williams, mas os ingleses decidiram não apelar junto a FIA, deixando Ayrton ainda mais tenso.

O fator político falou mais alto na FIA. Era interessante um carro que pudesse fazer frente ao Williams de Senna, mesmo que esse carro tenha algum recurso proibido pela FIA escondido.

polêmica 1 - Schumacher entra em 2o e passa Senna nos boxes.

polêmica 2 - o truque foi descoberto na Alemanha, a equipe retirava o filtro das bombas o que fazia a gasolina entrar mais rápido no tanque.

HILL QUASE CAMPEÃO

Após a morte de Ayrton Senna em Ímola, a Williams seguiu traumatizada seu trabalho de reestruturação. Continuaram os trabalhos no FW16, e baseados nos pedidos feitos anteriormente por Ayrton Senna, repaginaram o FW16 para as etapas européias.

O crescimento da Williams durante a temporada é notório. Damon Hill, limitado tecnicamente, começa a fazer frente ao Benetton de Schumacher.

 Williams FW16 - inicio da temporada

Williams FW16b - carro repaginado

Graças ao banimento de Schumacher de duas corridas, punição por bandeira preta, Damon consegue encostar na classificação geral.

Após belíssima vitória no GP do Japão, Williams e Damon Hill conseguem chegar para a última etapa do campeonato atrás apenas 1 ponto para o líder Michael Schumacher e seu Benetton B194 Ford. 

O título ficou com o alemão Schumacher mas fica a pergunta, depois do notório crescimento do FW16 nas etapas européias, o que poderia ter feito Ayrton Senna com o repaginado FW16b ? Isso é algo que nunca se saberá.

crédito imagens: www.senna-files.com 

++

6 comentários:

Anderson Lopes disse...

A partir de 94, a F1 foi ver ma mudança brusca de regulamento, em termos de construção do carro, a partir de 2009, para tentar diminuir as peripercias aerodinamicas dos engenheiros, sem sucesso.

Acho que o caminho da F1 está sendo trilhado pelo endurance, vide o regulamento do WEC desse ano, que no caso do LMP1 obriga os carros terem motores hibridos (diesel + elétrico). Não confundam com o KERS, que é usado somente como push to pass, mas sim como energia para uso sem auxilio do diesel.

Fernando Tumushi disse...

Muito bom esse post, nunca tinha visto a comparação do modelo do inicio do ano e depois no final do ano com as mudanças que fizeram.

Parabéns continuem assim !

Dennys Andrade! disse...

O que Senna teria feito? Muito simples, Entrar na pista com a obrigação de vencer, e sair dela como sempre havia feito. Com a cabeça erguida e o sentimento de MISSAO CUMPRIDA...

Após ler este post mais e o post da TECNOLOGIA X CONCORRENCIA da pra ficar claro o que houve realmente por traz do acidente de Senna.


Dennys Andrade!

Ricardo Santos disse...

Bem, Senna nao se conformava em perder via problemas nos adversarios. No ano anterior reclamava das Williams, agora estava reclamendo da Benenton, Na moral a Benenton ja era o unico carro nao ativo mais rapido de 1993 um ano onde toda vez que terminou uma corrida Schumacher foi ao podio e com seu bico alto que virou tendencia absoluta desde entam estava a frente aerodinamicamente da Williams. Mesmo o motor V8 era muito bom ate porque com ele Senna e Schumacher venceram as ultimas 3 corridas de 1993. Portugual, Japao e Australia.
Dai nao havia duvida nenhuma que a oposicao da Benenton-Ford seria forte em 1994. O que aconteceu apos Imola fora as mudancas emergenciais em circuitos , foi que a FIA forcou os carros a usar uma TABUA PLANA embaixo do carro, tabua que prejudicou mais a Benenton que a Williams, mas mesmo assim sem as punicoes da Inglatera e Belgica e as 2 corridas de suspensao Schumacher teria sido campeao na Italia. Se o Senna tivesse resistido a batida teria de ver qual seria sua condicao fisica, porque pilotos nao de carne e osso, e acidentes fortes como o do Piquet na mesma curva certamente podem deixa-los mais lentos ou mesmo exigir algum tempo para voltar a correr. De toda forma sua perda foi muito pior que a perda de qualquer campeonato e mesmo se nao voltasse a correr seria muito melhor que estivesse vivo.

Raul disse...

Senhor Ricardo Santos o seu comentário está cheio de erros...a Benetton tinha suspensão ativa sim...a Mclaren chegou a oferecer a sua suspensão ativa para a Benetton em troca de dar para eles o mesmo motor Ford da Benetton, mas Briatore não quis...porque disse que estava com uma suspensão ativa pronta...um monte de equipe teve até a Footwork teve comprou por 6 milhões de dólares da Mclaren...

Regis disse...

Senna assinou o contrato com a Williams pensando em pegar as Williams completa, mas por pressão da Benetton e da Ferrari a FIA mudou as regras, Briatore dizia que Senna iria ganhar todas as provas de 1994 se lhe dessem uma Williams eletrônica, o próprio Frank Williams confirma que tinha que haver unanimidade na votação e a Williams eram contra o fim da eletrônica, mas o Bernie dobrou o Frank. A Williams foi o carro que mais sentiu, só se recuperando no segundo semestre de 1994 com o surgimento do FW16B mais adaptado as novas regras. E a Benetton de 1993 tinha suspensão ativa sim, só que ela era um pouco menos evoluída do que as da Williams (esta se auto-ajustava eletronicamente por satélite), já o da Mclaren, Footwork e Ferrari se ajustava por informações do bico do carro, já o da Benetton era o piloto que abaixava ou levantava o carro de forma manual, reparem que nas retas o Schumacher sempre apertava um botão...(ver imagens on board), a Benetton de 1993 era muito rica, tinha a segunda maior equipe e o terceiro maior orçamento. Eles eram tão fortes que até rodas direcionais na traseira eles estavam para estrear em 1994. A Benetton tinha controle de tração e câmbio semi-automático, só faltava o ABS do qual só a Williams e Mclaren tinham.