sábado, 4 de agosto de 2012

A um passo da Genialidade


A bordo de um carro inferior, Fernando Alonso está dando um show na concorrência.

O ano de 2012 não começou bem para Fernando Alonso. Após as primeiras voltas com a nova Ferrari F2012, o espanhol deu amostras de que o ano seria perdido. Sem demonstrar desânimo mas ciente das dificuldades que encontraria, Alonso uniu-se ainda mais com a equipe e focou-se em melhorar o errático F2012. A primeira etapa evidenciou uma superioridade da McLaren, o que deixou claro para os italianos de que um título esse ano seria praticamente impossível.

O espanhol causava estranheza ao afirmar que, mesmo com um carro errático, lutaria por poles e vitórias. Era quase uma voz solitária ao afirmar que faria de tudo para lutar pelo título mas que faltava muita coisa a fazer.
Quase todos acreditaram que a Ferrari era ruim, e de fato é, pelo menos era, hoje é um carro mediano, vide desempenho do companheiro de equipe Felipe Massa.

Vitória Inesperada na Malásia
Eis que Fernando Alonso conseguiu uma inesperada vitória na Malásia. E de lá para cá, não parou mais de nos brindar com desempenhos acima da média. Sua vitória em casa, em Valência, apenas coroou a fase sensacional que se encontra o espanhol.

O sentimento para os amantes do automobilismo é de que Alonso está se tornando "gênio", e a gora será muito dificil ele perder este campeonato. Muitos pilotos na história da categoria "roeram o osso" até conseguir o seu tricampeonato. Tivemos alguns casos na história como o de Niki Lauda, que após ser bicampeão mundial e sobreviver a um gravíssimo acidente em Nurburgring, saiu da F1 e voltou anos depois para conseguir o terceiro título. Nelson Piquet é outro exemplo, após conseguir o bicampeonato pilotando a Brabham, esperou quatro anos para conseguir o tricampeonato pela equipe Williams. O mais recente caso é o de Michael Schumacher. Após conseguir o bicampeonato pela Benetton 1994/95, "roeu o osso" por cinco anos na Ferrari até conseguir o "tri" no ano 2000 após luta dramática contra seu rival Mika Häkkinen. 

Bicampeonato Mundial pela Renault 2005/06

Período 2007/2011 - A fonte secou
Temporada 2012 - A um passo da genialidade

O que torna semelhante todos estes fatos em si foi que, todos estes pilotos, após conseguir o terceiro título mundial, foram alçados a categoria de "gênio". Não apenas por consegui-los de maneira convincente, mas também, por terem "sofrido" e "ralado muito o osso" para chegar a tal júbilo. Esse meio-tempo entre o segundo e terceiros títulos serviram para estes pilotos amadurecerem e crescerem como pilotos, sendo assim, tornando-os mais completos.

Hoje em dia, não existe (exceto Michael Schumacher) piloto mais preparado, amadurecido e merecedor deste título do que Fernando Alonso. O espanhol foi bicampeão em 2005/06 pilotando para a equipe Renault, após o bicampeonato, foi alçado ao posto de "melhor piloto em atividade" e teve que conviver com altos e baixos. Perdeu o brilhantismo e o respeito dos demais no caso da espionagem da McLaren em 2007. Retornou para a Renault, e encontrou uma "terra arrasada". E para piorar sua imagem, foi envolvido no caso "Cingapuragate", quando o seu companheiro de equipe Nelsinho Piquet foi ordenado pelo então chefe-de-equipe Flávio Briatore a bater propositalmente para favorecer o companheiro de equipe Alonso.


Sua ida para a Ferrari em 2010 era um desejo antigo do chefão da Ferrari Luca di Montezemolo. Ao ser confrontado com o novo companheiro de equipe Felipe Massa, o abismo que separa a categoria dos dois pilotos foi assustadora. Na sua primeira temporada foi vice-campeão mundial. No ano passado não conseguiu fazer frente a dupla Vettel-Red Bull, e após três anos de equipe começaram a pipocar as primeiras pressões vindas da diretoria ferrarista.

A resposta do espanhol foi imediata. A distância entre Massa e Alonso aumentou, Fernando tem toda a atenção da equipe, e o seu desempenho como piloto alcançou um nível extraordinário. 
Fernando Alonso está inspirado, merece o tricampeonato, e tudo leva a crer que este ano vai ser do coroamento deste novo gênio do esporte, basta tudo continuar como está, e teremos um novo integrante na galeria dos tricampeões mundiais de F1 que já conta com a presença de Jack Brabham, Jackie Stewart, Niki Lauda, Nelson Piquet e Ayrton Senna.


Fernando Alonso, muito perto do tricampeonato mundial.

por Claudio Souza
@claudiosgs

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Nascimento de uma Lenda

Em um belo dia


Em 1991, na pista de Spa Francorchamps, Michael Schumacher fez sua brilhante estréia na F1. Mas somente uma bizarra circunstância e algumas espertezas do seu empresário Wili Weber o fez acontecer.

por Adam Cooper

Quem poderia pensar que um taxista de Londres Eric Court faria uma profunda contribuição para a história da Fórmula 1? A briga de Court com o piloto da Jordan Bertrand Gachot e sua luta por coloca-lo na prisão por tê-lo agredido abriram as portas da F1 para Michael Schumacher - razão pela qual fez ele correr como um avião supersônico em sua estréia.

  Bertrand Gachot era o piloto titular da Jordan em 1991.

O GP belga era uma semana depois da decisão  da corte britânica de prender Gachot por tê-lo espirrado gás de pimenta no rosto do taxista Eric Court. Isso fez Eddie Jordan ficar com um cockpit vazio e obviamente sem ter um piloto à vista. Veteranos como Stefan Johansson, Derek Warwick e Keke Rosberg eram os prováveis substitutos, mas estas estáveis estrelas eram também estrelas muito caras para o bolso de Eddie Jordan.

Foi então que um estreante com reputação (e com potencial grana) Schumacher apareceu na equação, e Eddie Jordan se interessou.

Jordan sabia muito pouco de Schumacher, mas Wili Weber com quem havia negociado uma possível venda de sua equipe de F3000, o informou a respeito.
Weber estava assistindo Michael pilotar para a Mercedes no Campeonato de Protótipos na pista de Nurburgring quando ficou sabendo da recente prisão de Gachot.

Ele ligou para Eddie: "Eu liguei para o Eddie na Espanha e disse 'Escute, eu tenho alguém muito bom para você!. Ele disse: 'Quem é esse Michael Schumacher?', respondeu 'Você sabe, o homem que venceu em Macau e Fuji.' Eddie: 'Ah sim, eu me lembrei, e você acha que ele é rapido o bastante?' Eu disse 'Ele é muito rápido!'".

 Em 1991, Schumacher competia pela Sauber Mercedes no WSC

"Eddie queria saber se já tinha pilotado em Spa, e eu disse para ele: 'Eu acho que umas cem vezes' , o que era uma completa mentira, porque Michael nunca esteve em Spa! Ele disse que queria tempo para pensar e que não havia decidido nada. Eu liguei para o Eddie toda hora...".

Jordan consultou seu staff, que tinha uma idéia muito melhor sobre Michael Schumacher. O team manager Trevor Foster e o designer Gary Andersson queriam Schumacher no time.
Foster ficou particularmente impressionado com Michael em uma corrida na qual ele foi o segundo colocado, na F3000 japonesa em Sugo, um mês antes. Seu desempenho foi recordado em uma matéria de duas páginas na revista inglesa Autosport - atraindo bastante a atenção de pessoas do meio. 

Foster, que lembrou do impacto da matéria, recordou: "Eu estive em algumas corridas no Japão, e eu vi o quão dificil era." "Aquele garoto tinha habilidade."

Mas Eddie Jordan estava muito interessado em Keke Rosberg, mais pela credibilidade que daria a equipe. Ele me ligou e nós conversamos sobre isso, e nós o alertamos que deveríamos ir com o Michael Schumacher. Eddie disse: "Mas ele é inexperiente". E eu disse: "Você parou para pensar que o Keke tem 43 anos?" . "Ah é? eu pensei que ele tinha somente 38!" respondeu Eddie.

Enquanto isso, Wili Weber continuou persuadindo Eddie...

Weber recorda: "Eu disse 'Quanto você quer para um teste?' Eddie disse £80.000 , e eu disse 'Ok, nós pagaremos isso'. Depois do teste você decide o que você quer' no fim do dia eu conversei com ele."

E ficou combinado que a decisão final de quem pilotaria o J191 seria após o teste de Schumacher em Silverstone. Então depois da corrida de Nurburgring, Michael, Wili e Jochen Neerspasch da Sauber Mercedes vieram para a Inglaterra, primeiramente para visitar a Arrows e depois ir para a equipe Jordan. Depois de moldar o banco, Michael foi para o circuito de Silverstone para o primeiro teste. Ele estava assistido por Trevor Foster, o gerente comercial Ian Phillips e três mecânicos. Eddie Jordan estava de viagem, na Espanha, esperando pelas informações por telefone.

  Schumacher em Silverstone, a estréia impressionante

 A tranquilidade de Schumacher impressionou

Phillips relembra: "Um dos caras veio até mim e disse 'Bem, ele não deixou o motor morrer, então parece que ele tem jeito para o negócio...'
Após apenas quatro voltas, Trevor e eu estavámos atrás de uma curva assistindo, e Trevor disse: "Eu acho que é melhor chamar ele para entrar nos boxes, ele está indo muito rápido - mas vamos ligar para o Eddie e dizer a ele que encontramos alguém muito bom!". 

Weber gargalhou ao se recordar "Logo após umas voltas de aquecimento, Michael estava indo muito rápido e Trevor estava todo preocupado e assustado com o que estava vendo."

Foster confirma Weber "Ele estava derrapando nas quatro rodas e mantinha incrivelmente o controle do carro nas curvas. Os discos dos freios estavam incandescentes após duas voltas e ele estava pilotando como se já conhecesse o carro há anos."
"Ele fez em torno de 10 voltas, e eu disse 'traga-o para os boxes'. Eu disse para o Wili 'Você tem que avisa-lo que temos que pegar este carro para ir para Spa à tarde, e essse será o motor para sexta e sábado. Nós temos que ter muito cuidado. E esta me parecendo que ele está dando tudo de si hoje sem necessidade."

"Ele voltou e fez mais 10 voltas - e foi tão rapido quanto nós fomos aqui com o Andrea de Cesaris e o Bertrand Gachot. Eu liguei imediatamente para o Eddie e disse 'esse cara é incrivel. Ele é especial'.

Enquanto o carro era carregado para o caminhão, Jordan concordou que Michael pilotasse o J191 em Spa-Francorchamps. O preço foi de £150.000 , que por coincidência ou não era o preço cobrado pela Cosworth para a manutenção de seus motores. Neerspach confirmou que a Mercedes garantiria o dinheiro, e os patrocinadores Dekra e Tic Tac completariam o patrocinio.

 Schumacher em Spa, um desconhecido em busca do sonho.

 Eddie Jordan e Michael Schumacher, o patrão desconfiava de sua inexperiência.

"Eu estava muito próximo de colocar o Stefan Johansson." - admitiu Eddie. "Para ser honesto, e eu sei que soara bizarro após todos estes anos, tudo isso ocorreu por causa do dinheiro. A Mercedes estava preparada para trazer a Alemanha de volta à F1, e eu queria ser esta porta de entrada."

Acordo feito, Michael e Wili foram para a casa. Na quinta-feira eles viajaram até Spa no Mercedes 230 coupé de Schumacher, e na chegada, Wili confessou a mentira que contara para Eddie.

Weber: "Eu disse 'Escute, eu disse para o Eddie que você conhece a pista muito bem porque você correu aqui muitas vezes' . Michael disse 'Não, isso não é certo, eu nunca estive em Spa', ele disse 'Wili, nós precisamos avisar o Eddie!'".

"Então eu disse 'Eddie eu preciso te falar que eu me enganei com as pistas, não era Spa que o Michael tinha pilotado, e sim em Zolder.' Ele respondeu 'Seu idiota, o que nós vamos fazer agora?' Eu disse: 'nada, agora deixa ele ir'.

Andrea de Cesaris concordou em levar o novato para conhecer a pista em um carro de passeio mas Michael teve que esperar pacientemente o veterano italiano encontrar tempo disponível.
Trevor disse a Michael que ele tinha perguntado ao italiano se ele iria ajudar o novato a conhecer a pista, e escutou do veterano: ""Eu estou um pouco cansado agora."

A reação de Schumacher foi instantânea e caracteristicamente decisiva. Ele pegou uma bicicleta do seu carro, subiu nela, e foi dar uma volta no traçado belga.

Decidido a conhecer o traçado, subiu na bicicleta e fez duas voltas por Spa.

De Cesaris nunca encontrou tempo disponível para ajudar o novato alemão, e após duas voltas de bicicleta pelo traçado belga, Michael e Wili foram se acomodar em uma pousada próximo a Spa.

"Quando chegamos, nós não encontramos vagas em hotéis." disse Weber, "Então nós ficamos em uma pequena pousada um pouco fora de Spa. Tinha duas pequenas camas, e no meio tinha um banheiro e um pequeno lavabo. Michael estava acomodado na cama esquerda e eu na cama direita. E eu me recordo que nós dormimos em cima do caminhão. Era um tremendo fim de semana para mim. Michael provavelmente não tinha se dado conta, mas eu sabia o quão importante era estar na Fórmula 1".

Treinos livres de sexta-feira e Michael foi para a pista.

 Schumacher em ação em Spa.

"Ele estava lá muito bem preparado." diz Foster , "Ele estava sempre entre o 8º e 10º lugares." . Eu o chamei para os boxes e ele disse: "Eu quero que saia um pouco de traseira aqui, um pouco de dianteira ali..." . Pode soar um pouco estúpido agora, mas eu disse: "Esse é o seu primeiro GP, você está indo muito bem, mas você tem todo o fim de semana - você não está passando um pouco dos limites, não acha?"

"E ele disse com muita calma 'Não, eu estou dentro dos limites e eu não estou passando do limites' disse Michael tranquilamente."

Eu estava na garagem da Jordan assistindo aos monitores de tempos com Murray Walker, e eu nunca esquecerei o que ele me disse: "Você deve estar presenciando a estréia de alguém muito especial, você não acha?".

"Ele teve um pequeno vazamento de água", disse Trevor Foster, "O que quer dizer que nós teríamos que tirar o motor do chassi e trocar a bomba d'água. Entretanto, Andrea de Cesaris aparentemente teve um problema com o seu carro, não estava com boa dirigibilidade, então ele teria que ir no carro reserva. Nós colocamos Michael no carro do Andrea, trocamos o banco, ligamos o motor e ele foi para a pista. Ele foi mais rápido que o Andrea."

 Michael no carro de Andrea, mais rápido que o veterano italiano.

Mais tarde, Michael se complicou na curva Bus Stop quando Alain Prost retardou sua freada mais do que o normal. 

Ian Phillips recorda: "Ele e eu estavámos na torre de controle porque ele se atreveu a ultrapassar Alain por dentro da chicane, e os comissários queriam saber o porquê. Michael simplesmente disse que Alain Prost estava muito lento - e no seu caminho. Eu pensei "Sim!" e pensei também que finalmente tinha aparecido alguém que iria estremecer o circo.

Schumacher estava em um ótimo 8º lugar nos tempos de sexta-feira, no primeiro treino oficial.
"Nós nos sentamos para conversar", disse Foster, "E tudo foi muito fácil. Ele não estava estressado com aquele mundo. Andrea disse que estava tendo problemas com as duas curvas da Eau Rouge. E eu me virei para o Schumacher e perguntei: 'Isso tem acontecido com você também?' Ele disse 'Estava sim, mas eu encontrei após três voltas que se nós mantermos pé embaixo em quinta marcha, e pisar um pouco no freio no meio das duas curvas, o carro se comportava melhor'. Andrea ficou estarrecido. Ninguém tinha feito isso até então, mas ele estava fazendo tudo a sua maneira. Era tudo muito natural. Nem ele estava se dando conta da imensidão daquele mundo da F1."

Michael e Wili foram a uma pizzaria de Spa, e eles ficaram perto de uma mesa que eu estava, então nós tivemos uma longa conversa de como tinha sido seu primeiro dia. O lugar estava cheio, mas nenhuma pessoa reconheceu Michael Schumacher.

  7º lugar no grid aumentou a atenção da mídia.

Ajudado por uma penalização dada a Riccardo Patrese, Schumacher foi alçado a 7º posição no sábado, apesar de ter perdido sua melhor volta por causa do tráfego na pista. Somente uma vez um carro Jordan largou melhor que a décima posição. Até Ayrton Senna percebeu que Michael Schumacher era "alguém especial".

Weber recorda: "Nós conversamos a noite toda sobre o carro e o quanto era rápido. Ele me disse que poderia ir de pé embaixo na curva Eau Rouge e que estava impressionado com tudo, com a dirigibilidade do carro. Eu nunca o senti nervoso. Ele estava tranquilo, como atualmente é hoje."

Como Phillips recorda: "Eu me lembro de nós estarmos a poucos passos da nossa assistente de imprensa. Na época, era óbvio, ele também estava interessado tanto nas garotas quanto nas corridas. Depois que algumas belas garotas passaram por nós, eu pensei: "Esse é o cara!". 

Michael estava em 4º lugar no warmup, então pensamos que tudo estava ok. Ele tinha tido algumas largadas ruins no Campeonato de carros protótipos, mas ele fez uma largada brilhante em Spa, ultrapassando Nelson Piquet e Jean Alesi. O brasileiro estava convencido que o novato havia queimado a largada. Na curva "La Source" ele estava por dentro e quase foi batido por Gerhard Berger.

  Momento de concentração antes da largada.

 Eddie e Schumacher nos boxes de Spa.

 Trevor Foster dandos conselhos ao jovem alemão.

Ele estava em 5º lugar quando os carros estavam descendo a montanha em direção a Eau Rouge. Mas no meio de uma das curvas da mítica curva ele diminuiu de repente, e acabou quase antes de ter começado.

A verdade sobre o porquê de sua embreagem ter estourado não tinha sido revelada até a divulgação desta matéria. Enquanto isso, De Cesaris estava à caça de Ayrton Senna pela liderança da prova quando seu motor estourou a três voltas do final. Ele tinha largado em 11º lugar. Então era claro que Michael Schumacher poderia ter vencido em sua corrida de estréia na Fórmula 1.

"Ele estava desapontado, porque ele estava apaixonado pelo carro da Jordan." disse Weber. "Ele queria somente sentir o carro, sentar no carro e pilota-lo até o limite. Essa era a sua meta."

Na outra semana, Michael Schumacher testou mais uma vez o J191 em Silverstone. Contudo, em Monza ele apareceu sentado a bordo do Benetton B191, mas essa é outra história para outro post...  

 Jordan J191 Ford de nº 32 - o carro da estréia


Ele estava preparado para vencer - Mas passou dos limites da máquina

Michael atordoou Andrea de Cesaris por casualmente mencionar em uma reunião da equipe que ele tinha usado um pouco o freio em plena 5ª marcha na curva Pouhon, bem no limite das duas curvas da Eau Rouge. Mas foi uma experiência não muito boa com os pedais porque isso lhe resultou no abandono precoce da corrida.

"No tempo em que a Cosworth não permitia você correr com uma embreagem com três platôs", disse Trevor Foster. "E ficou muito pesado para o virabrequim. Então nós usamos uma embreagem com dois platôs".

"Era um pouco marginal, para ser honesto. Nós preparamos uma nova embreagem depois do warmup, porque o Michael queixou-se da embreagem pela manhã."

"Ele fez um simulado de largada no grid falso, foi para o grid real e fez uma boa largada. Ele saiu da 7ª posição para a 5ª e tomou a linha de dentro da La Source."

"O J191 era um carro monocoque, com um simples amortecedor sem a barra estabilizadora frontal, então era um carro muito duro na frente. E durante o hairpin você tem uma baita saída de frente, e por você estar com um giro de motor baixo, o motor tende a te empurrar."

"Michael pensou 'eu vou afundar o pé na embreagem e vou deixar as rodas motrizes livres durante a curva', e ele fez uma nova largada. Ele fez exatamente isso para fazer a primeira curva bem por dentro, e teria feito uma bela descida para a Eau Rouge. Mas isso significou que a embreagem teve duas massivas largadas em 300 metros. E a embreagem não aguentou."

"Nós tiramos a caixa de câmbio do chassi após a corrida, e o câmbio caiu peça por peça. E nada sobrou. Isso foi resultado de um pouco de inexperiência. Mas, conforme ele foi aprendendo os segredos do carro fórmula, ele foi se aperfeiçoando até sua primeira vitória."

 Saldo da estréia: 7ª posição no grid, abandono precoce e contrato com a Benetton.

Schumacher a bordo do Jordan nos treinos em Spa

Largada e abandono precoce.

Fim de semana com a Jordan

Textro extraído da Revista Autosport
por Adam Cooper
traduzido por Cláudio Souza
  

domingo, 24 de junho de 2012

Lágrimas de um Campeão


O Herói espanhol

" Opinião particular, desde que acompanho Fórmula 1, seja ao vivo, por VHS ou DVD, essa tem sido a melhor temporada de Fórmula 1. A mais espetacular, a mais emocionante e a mais imprevisível.


Na imprevisibilidade, grandes campeões prevalecem, e hoje, Fernando Alonso se tornou herói. Fazia muito tempo que eu não me arrepiava com uma vitória conquistada na garra e com boa dose de sorte que apenas grandes campeões possuem.


Hoje, posso dizer que Fernando Alonso Díaz me conquistou como fã. A bordo de um carro inferior perante seus grandes rivais, diante de sua torcida, largou da 11ª posição, ultrapassou um a um, contou com o abandono inexplicável de Vettel e Grosjean e consegui uma vitória inesquecível.




Ao vê-lo carregar a bandeira espanhola, ao vê-lo parar no meio da pista (e a torcida só não invadiu por causa das severidades na segurança atual, em outros tempos, Alonso estaria nos braços do povo) e principalmente ao vê-lo se emocionar no pódio foram sensações que me fizeram crer que somos privilegiados, como fãs de F1, de acompanhar essa temporada.


Apesar da exuberante etapa valenciana, o país passa por grave crise financeira afetando jovens que enfrentam o desemprego e a incerteza de um futuro digno. E o esporte nacional tem sido uma das poucas alegrias do povo espanhol, fica então compreendida a forte comoção demonstrada pelo patriota Fernando.


Impossível não recordar a mesma situação vivida por nós, brasileiros, no início da década de 90, quando o país enfrentava uma situação semelhante e a Fórmula 1 era um dos poucos esportes que alegrava o povo. E impossível não recordar as mesmas sensações do GP do Brasil de 1993, quando o saudoso Ayrton Senna a bordo de um carro inferior perante seus grandes rivais, lutou bravamente, contou com a sorte (abandono de Prost e punição de Schumacher), audácia (ultrapassagem sobre Hill) e garra para vencer o GP de casa, causando forte comoção e invasão do povo nas pistas. Tudo muito parecido como hoje. "



por Claudio Souza
@claudiosgs

domingo, 10 de junho de 2012

Jim Clark - O Escocês Voador

O primeiro Senna



Para ele, correr era sinônimo de vitória! Dono de um arrojo insuperável, protagonizou uma das mais brilhantes carreiras no automobilismo.

Vencer ou... vencer! O segundo colocado é o primeiro dos perdedores. Esta frase, muito comum na boca de Ayrton Senna, tem suas origens. Jim Clark que o diga. Considerado o mestre do arrojo, o Escocês Voador, como era chamado, largou 72 vezes em provas de Fórmula 1. Venceu 25, mas só chegou em segundo lugar apenas uma única vez. Para ser mais exato, quando não venceu só pontuou 15 vezes.

Clark sempre acelerou fundo. Sua estratégia nunca foi segredo para ninguém: abrir o máximo de vantagem no ínicio para, depois, administrar. Com frequência, tinha de levar o carro nas costas no final devido a problemas mecânicos. E mesmo assim, vencia. Seu estilo agressivo e sua habilidade sempre encantaram, principalmente quando vencia Graham Hill, seu principal rival nas pistas. Rapidamente, ganhou a admiração de Colin Chapman, proprietário da Lotus - equipe pela qual sempre correu e venceu seus dois campeonatos mundiais em 1963 e 1965 - e, principalmente, do público, que o imortalizou na restrita galeria de heróis da Fórmula 1.

 No do ano do bi, 1965, Jim venceu seis provas seguidas.

Jim Clark nasceu em 1936, na pequena Kilmany, Fife, na Escócia. Filho de uma familia de agricultores, não se interessou pelos negócios do pai e logo estava pilotando para a Bordon Reivers, uma equipe privada dirigida por escoceses. Sua carreira decolou em 1960, quando a equipe lhe entregou um Lotus Elite novinho em folha e o inscreveu para o famoso GP de Brands Hatch. Daí para ingressar para a Fórmula Júnior da equipe Lotus foi um passo. Jim dominou a categoria e, apesar de ter disputado algumas provas pela Aston  Martin, ainda em 1960 aceitou o convite de Chapman para dirigir para a equipe principal da Lotus.

Sua estréia no Mundial de Fórmula 1 foi no GP da Holanda, e já aí mostrou seu talento: andou em quarto por um bom tempo, até ser obrigado a abandonar com o câmbio quebrado. Ainda neste ano, marcou um impressionante terceiro lugar no GP de Portugal, foi quinto nos GPs da Bélgica e da França, e terminou o campeonato na oitava posição. Nada mau para quem acabara de iniciar a carreira...

Jim Clark - Em sua essência

O ano seguinte marcou uma transição na F1. Os motores foram limitados a 1500 cm³ e nenhum dos times britânicos estava preparado para a mudança. O que se viu foi um banho da célebre Ferrari Dino 156, apelidada de "Sharknose" (nariz de tubarão) devido ao formato do bico. Os pilotos Wolfgang von Trips, Giancarlo Baghetti e Phil Hill (que acabou ficando com o título) levaram os carros do Comendador Enzo a cinco vitórias nas oito provas disputadas do Mundial. A Lotus venceu as outras três, com duas vitórias de Stirling Moss e uma de Innes Ireland.

Hill, o grande rival

Em 1962, no entanto, Jim realmente explodiria como piloto. Contando com um carro mais potente - a Lotus, para esse ano, tinha novos v8 da Coventry-Climax, e estreava o revolucionário modelo 25 , que trazia a maior novidade para época: um chassi monocoque. O duelo que o Escocês Voador travou no campeonato com Graham Hill, que corria pela BRM, foi, no mínimo, memorável. Clark não levou o título apenas porque seu carro não era muito confiável. E nem por falta de velocidade: dos nove GPs disputados, largou na primeira fila oito vezes, sendo seis da pole. Entretanto, foi Hill quem começou a temporada vencendo, no GP da Holanda. Clark acertou o passo já na prova seguinte, o GP da Bélgica, disputado no díficil circuito de Spa-Francorchamps, conquistando sua primeira vitória na categoria. Depois, venceu ainda o GP da Inglaterra. Hill reagiria, ganhando os GPs da Alemanha e Itália. Uma nova recuperação de Clark, que vencera o GP dos EUA, levaria a decisão do título para a África do Sul, última prova da temporada. Este GP começou bem ao estilo de Jim: largando da pole, abriu logo no ínicio cerca de 30 segundos de vantagem, praticamente garantindo a vitória. No entanto, um problema no motor, que começou a perder óleo, obrigou-o a abandonar. O caminho estava aberto para Hill.

 Graham Hill e Jim Clark, rivalidade dentro das pistas.

Clark e Colin Chapman, aventura em Indianápolis.

Cama voadora

Se, em 1962, Jim perdera o título para Hill na última prova, em 1963 ele fora impecável. O Lotus 25, apelidado de cama voadora devido à posição de pilotagem, já que o piloto dirigia quase deitado - exatamente como hoje, já na época começavam as preocupações com a aerodinâmica dos carros - tornara-se confiável e, apesar de uma má estréia, acabou se firmando como o melhor monoposto da temporada. Clark travou um duelo íncrivel com Hill e fez uma temporada memorável, marcando sete vitórias seguidas em dez provas, fazendo igual número de poles e ainda marcando seis melhores voltas. Como só os seis melhores resultados contavam pontos para o campeonato mundial, Clark ainda conseguiu a proeza de ser campeão marcando o número máximo de pontos. Coisa para poucos.
Apesar de contar com o melhor carro da temporada, Jim deixou evidente que seu talento era fundamental para tanto desempenho. A prova mais evidente de sua genialidade ficou clara no GP da Bélgica, em Spa Francorchamps: ignorando a chuva torrencial que caíra durante a prova, acelerou tudo e mais um pouco até dar uma volta em todos os concorrentes. De novo, a comparação com Ayrton é inevitável...

 Jim Clark, campeão do Mundo em 1963.

O ano de 1964 não foi tão bom como o anterior, mas mesmo assim Jim levou a decisão do título para a última prova. E a história se repetiu: na liderança, tinha enorme vantagem sobre o segundo colocado, até seu Lotus falhar novamente. Terminando em quinto, o título acabou ficando com John Surtees, que, chegando em segundo, terminou o campeonato um ponto à frente de Hill. Mas, em 1965, Jim conseguiria sua consagração como piloto: venceu as seis primeiras provas do campeonato e só ficou de fora da disputa da sétima vitória consecutiva, no GP de Mônaco, por uma razão muito simples: optara por disputar as lendárias 500 milhas de Indianápolis. E venceu! O título fora confirmado com a vitória no GP da Alemanha, três provas antes do término da temporada.

 O primeiro campeão Mundial de F1 a vencer as 500 milhas de Indianápolis.

Da mesma maneira que 1965 foi um ano inesquecível, 1966 seria o ano a ser esquecido. A F1 voltava aos motores de 3.0 litros e, novamente, a Lotus não estava preparada. Basicamente, porque um acordo havia sido firmado com a Ford, que passaria a fornecer propulsores à equipe atráves da Cosworth Engineering, a partir de 1967. Neste ano de transição, Clark colecionou abandonos e venceu apenas o GP dos EUA, terminando o campeonato na sexta posição. No ano seguinte, a decepção foi igual: por exigência da Ford, que queria duas superestrelas na equipe que leveva seus motores, a Lotus contratara Graham Hill, o grande rival. Clark chegou a vencer o GP da estréia do motor Ford Cosworth, mas, mesmo com a Lotus tendo vencido o maior número de provas da temporada, as quebras foram muitas e o título acabou ficando com o regular Denis Hulme, pilotando um Brabham Repco, que não era veloz, mas era o mais confiável. 

A última temporada

Novas perspectivas se abriam na temporada de 1968, quando Jim começou vencendo, no GP da Africa do Sul. A Lotus e a Ford pareciam ter acertado o carro e Clark conquistara sua 25ª vitória, batendo o recorde de Juan Manuel Fangio, de 24 conquistas. Mas a fatalidade acabaria de vez com o sonho do tricampeonato: participando de uma corrida de Fórmula 2, em Hockenheim, no dia 7 de abril, Jim perdeu o controle do carro e bateu em um árvore... Coisas de F1 de outrora. A notícia da morte de um dos maiores ídolos da categoria abalou o mundo da F1 e a Lotus, sem seu grande piloto, acabou sendo campeã com Graham Hill. 

  Restos do Lotus, morte de Clark chocou o mundo da F1.

Acidente Fatal - Hockenheim - 7/4/68

Murray Walker on Jim Clark

Mesmo 44 anos após a morte de Jim Clark, suas façanhas ainda são impressionantes: 25 vitórias em 72 provas disputadas, 33 poles, marca só superada por Michael Schumacher e Ayrton Senna e igualada por Alain Prost, 28 melhores voltas, número só superado por Prost, Mansell e Schumacher e 11 "perfect scores", como os ingleses chamam as vitórias conquistadas com largada da pole, de ponta a ponta, e com a melhor volta.

James "Jim" Clark jr. 
04/03/36 - 07/04/68
 73 GPs disputados;
25 vitórias;
33 poles;
28 melhores voltas;
Bicampeão Mundial de F1 (1963/1965)
Vencedor das 500 milhas de Indianápolis 1965

 

Texto extraído da Revista Racing
Nº 11
por Mario Fittipaldi