quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Automobilismo Finlandês

Fórmula Finlândia


O que faz deste país com pouco mais de 5 milhões de habitantes, frio e cercado de gelo ser potência no automobilismo mundial.

por Cláudio Souza
@claudiosgs

Certa vez, em um bate papo online, tive o prazer de ter uma pergunta selecionada para o bicampeão mundial de Fórmula 1 Mika Häkkinen. A pergunta era: Qual era o segredo da Finlândia ter tantos pilotos bons tanto na Fórmula 1 quanto no rali? E o grande bicampeão respondeu que os finlandeses eram determinados a ponto de viajar dentro de trailers pela Europa Continental em busca de seus sonhos, não desistiam com facilidade de seus objetivos e treinavam muitas vezes em condições super adversas como no gelo e em plena escuridão pois o inverno finlandês tem apenas seis horas de sol por dia. 

Depois da resposta do Mika, comecei a perceber que este país nórdico era especial. São quatro títulos mundiais de Fórmula 1 e quatorze títulos mundiais de rali além de inúmeros títulos nas categorias de base. Tenhos dois colegas suecos, e minha curiosidade fez perguntar a eles o porquê deste crescimento do automobilismo finlandês frente ao sueco sendo que os suecos possuem uma pista de nível TOP como Anderstorp e dois heróis - Ronnie Peterson e Gunnar Nilsonn. 

A resposta dos meus colegas suecos foram idênticas e claras. No automobilismo finlandês, os pilotos da casa são fortemente apoiados por empresas nacionais e os pilotos são determinados (característica do povo finlandês), as famílias entram em seus trailers e saem Europa afora disputando campeonatos. Já o automobilismo sueco sofreu muito após as mortes trágicas de Peterson e Nilson, com isso o automobilismo ficou manchado para o país. As empresas dificilmente apoiam as jovens promessas além do povo não ter o mesmo gosto pelo esporte que anos atrás, dificultando ainda mais o suporte. E a rivalidade existente entre Suécia e Finlândia dificulta ainda mais o desenvolvimento de jovens suecos, porque eles migram para a vizinha ao leste, e não conseguem apoio para o prosseguimento da carreira. 

Jari-Mari Latvala, atualmente um dos heróis finlandeses no rali.
Eis uma pequena amostra da receita do automobilismo finlandês. Empresas apoiando jovens talentos, treinamento sob condições adversas e determinação. O esporte está entre as preferências dos finlandeses, o rali tem maior tradição do que a Fórmula 1 e o grande herói do automobilismo finlandês chama-se Juha Kankkunen.

Juha Kankkunen é Tetracampeão Mundial de Rali. 
Tetracampeão de Rali, estreou em 1979 e finalizou sua carreira em 2002. Disputou 161 ralis, conseguindo 23 vitórias e 75 pódios.

Diferentemente da maioria dos países com tradição no esporte à motor, na Finlândia a maioria dos pilotos começam em mini-carros adaptados, aonde disputam provas em pisos de terra ou gelo. Muitos desses pilotos migram para o kart aonde desenvolvem suas habilidades para a fórmula. Os pilotos que não migram, partem para o rali ou turismo.

Outro grande herói do esporte à motor é Mika Pauli Häkkinen. Bicampeão Mundial de Fórmula 1, maior rival de Michael Schumacher nas pistas, estreou no automobilismo nos karts na sua cidade natal - Vantaa. Dando importância as opiniões dos colegas suecos, Mika teve um patrocínio importante desde as categorias de base até a sua chegada na Fórmula 1. A empresa petrolífera finlandesa NESTE deu suporte na carreira do jovem finlandês.

Mika Hakkinen e o apoio da NESTE

A NESTE apoiou Keke Rosberg em seus tempos de Fórmula 1.
A NESTE patrocinou Mika Häkkinen na Fórmula 3, na sua entrada na Fórmula 1 até a chegada na equipe McLaren, aonde teve que abrir mão do patrocínio por causa do contrato da equipe com a Shell. A NESTE investiu também nas carreiras de Jirkyjarvi Lëhto (o JJ vem de JirkyJarvi), outro contemporâneo de Mika, que iniciou sua carreira na F1 também em 1991 pela equipe Dallara, inclusive conseguindo um heróico pódio no GP de San Marino.

JJ Lehto foi o primeiro finlandês após Rosberg a subir no pódio.
O primeiro piloto finlandês a sagrar-se campeão mundial de Fórmula 1 coube a um sueco naturalizado finlandês. Keijo Erik Rosberg nasceu em 6 de dezembro de 1948 na cidade de Sölna na Suécia. Sua familia mudou-se para Oulu na Finlândia quando Keke era pequeno, esse acabou aderindo a nacionalidade finlandesa. Keke começou tarde no automobilismo, aos 29 anos de idade. Estreou na Fórmula 1 em 1978 e sagrou-se campeão mundial em 1982 com apenas uma vitória na temporada. Largou em 114 GP's conseguindo cinco vitórias e cinco poles. Seu filho, Nico Rosberg, nasceu em Wiesbaden na Alemanha e não fala uma palavra de finlandês apesar de já ter competido pela bandeira finlandesa.

Keke Rosberg, finlandês campeão mundial em 1982.
Todo país que tenha autoridade em automobilismo possui seu templo e a Finlândia também possuiu seu templo, mesmo que desconhecido para o grande público. O autódromo de Keimola foi o grande palco das aventuras dos pilotos finlandeses nos anos 60 e 70. Circuito de alta velocidade, foi palco do início do amor dos finlandeses pelo automobilismo. Assim como Jacarepágua que foi engolido pela ganância imobiliária do Rio de Janeiro, Keimola fechou as atividades por causa das dificuldades financeiras. Hoje, grande parte dos jovens finlandeses partem para a Europa Continental em busca de campeonatos, principalmente na Alemanha ou na vizinha Suécia.

Traçado do então Autódromo Internacional de Keimola.

Cartaz de uma prova de protótipos em Keimola.

Prova inaugural de F2.

MIka Salo e Mika Hakkinen competiram no kartódromo situado em Keimola.
Outra curiosidade relacionada ao automobilismo finlandês é o termo "Finlandês Voador" em inglês "flying Finn" ou em finlandês "Lentävä Suomalainen". Este termo foi designado aos atletas corredores da Finlândia que disputaram as Olímpiadas de 1924. Este termo foi designado ao grande atleta finlandês Paavo Nurmi, detentor de nove medalhas de ouro nas olímpiadas. Com a grande quantidade de finlandeses fazendo sucesso no automobilismo mundial, este termo passou a ser utilizado também aos pilotos. Pilotos de grandes sucesso como Tommi Mäkkinen e Juha Kankkunen ganharam esta alcunha. Keke Rosberg, Mika Hakkinen e Kimi Raikkonen foram os detentores desta alcunha histórica.

Video "The Flying Finns" feito pela Castrol em 1968.

Atualmente na Fórmula 1, a Finlândia possui dois representantes. O campeão mundial de Fórmula 1 de 2007 Kimi-Matias Räikkonen e Heikki Kovalainen. Piloto com grande destaque, jovem Valtteri Bottas está prestes a conseguir uma vaga na equipe titular da Williams tornando-se, provavelmente, no terceiro piloto finlandês na Fórmula 1.
No rali, a Finlândia é representada por Mirkko Hirvonen, Jeri Ketomaa e Jari-Maati Katvala. 

O primeiro piloto finlandês a competir na Fórmula 1 foi Leo Juhani Kinnuen, disputou seis corridas na temporada de 1974 pela equipe AAW. Em 1977 foi a vez de Michael "Mikko" Kozarowitzky, que competiu em duas etapas na temporada de 1977. Em 1978 estreou Keke Rosberg, campeão mundial de F1 em 1982, aposentou-se da categoria em 1986. Após Keke, o próximo finlandês a desembarcar na categoria foi Mika Pauli Häkkinen. Bicampeão Mundial de F1, estreou na categoria em 1991 gerenciado por Keke e apoiado pela petrolífera NESTE. Pilotou para a Lotus de 1991 até 1992. Esteve muito perto da vaga #2 da Williams para a temporada de 1993, mas perdeu o tempo das inscrições e acabou preterido por Damon Hill. Seu empresário Keke, então, conseguiu uma vaga de piloto de testes na McLaren, quando conseguiu sua estréia no GP de Portugal daquele ano. Desde sua estréia até sua aposentadoria em 2001, foram 161 largadas com 20 vitórias, 26 poles, 50 pódios e 25 voltas mais rápidas. É considerado por Michael Schumacher o adversário mais dificil que ele enfrentou nas pistas.

O pioneiro finlandês na F1 - Leo Kinnunen
Mika Hakkinen, Bicampeão Mundial de Fórmula 1.
No mesmo ano de sua aposentadoria, a Fórmula 1 dava as boas-vindas ao novo "finlandês voador". Kimi-Matias Räikkonen estreava a bordo do Sauber. Graças ao lobby do compatriota, conseguiu uma vaga na equipe McLaren, aonde pilotou de 2002 até 2006, quando foi contratado pela Ferrari para substituir o alemão Michael Schumacher. Na equipe inglesa conseguiu dois vice-campeonatos (2003/2005). Na equipe italiana, Kimi sagrou-se campeão mundial de F1 no polêmico ano de 2007. Em 2009 foi despedido da equipe e passou dois anos fora da F1 disputando corridas de rali. Retornou para a categoria em 2012 a bordo do Lotus Renault. Desde sua estréia foram 170 largadas com 18 vitórias, 16 poles, 68 pódios com 37 voltas mais rápidas. Apesar de seu título em 2007, o grande destaque de sua carreira foi sua vitória épica no GP do Japão de 2005, quando foi vencido no campeonato por Fernando Alonso, mas empatou em número de vitórias no ano com o espanhol - 7.

Lendária Ultrapassgem de Kimi sobre Fisichella - Suzuka 2005

Entre a safra vitoriosa de pilotos e títulos finlandeses na Fórmula 1, apareceram outros bons pilotos como Jirkyjarvi Lëhto, que estreou na categoria em 1991 com o mesmo gerenciamento e apoio do conterrâneo Mika Hakkinen. Seu grande destaque foi o pódio no GP de San Marino em 1991. Tivemos o outro Mika, de sobrenome Salo. Para muitos finlandeses, melhor que Hakkinen mas com a cabeça fraca. Seu ponto alto foi o pódio no GP da Alemanha em 1999 pela Ferrari quando substituiu o lesionado alemão Schumacher. Heikki Kovalainen, amante de heavy metal e fã da banda finlandesa Nightwish, estreou na categoria em 2007 a bordo do Renault. Bastante criticado, conseguiu uma vaga na equipe McLaren para ser companheiro de Lewis Hamilton. Seu ponto alto foi a vitória no GP da Hungria de 2008, hoje pilota com competência a nanica Caterham GP. O último desbravador chama-se Valtteri Bottas, campeão da GP2 Series em 2011, é piloto de testes da Williams e muito cotado para assumir uma vaga de titular na equipe. Para a mídia finlandesa, é um potencial campeão mundial. 

Reportagem de Felipe Motta, da radio JP em 2007. 

A Casa de Kimi Raikkonen, por Felipe Motta, radio JP

A Casa de Kimi Raikkonen, por Felipe Motta, radio JP

Tributo aos pilotos finlandeses na Formula 1.



sábado, 25 de agosto de 2012

Ayrton Senna na visão de Alain Prost

As memórias de um rival

Alain Prost relata como foram os dois anos de convivência e desmitifica o personagem Ayrton Senna.

O primeiro encontro entre eles foi em Maio de 1984, quando os dois foram convidados para participar da corrida inaugural do novo circuito de Nurburgring. Prost tinha acabado de se juntar a McLaren enquanto Ayrton Senna tinha acabado de fazer algumas corridas em seu ano de estréia na Fórmula 1 pela equipe Toleman. Com o passar dos anos, eles se tornaram companheiros de equipe na McLaren quatro anos mais tarde, Prost era bicampeão Mundial de F1 e Senna tinha conseguido seis vitórias com a Lotus e uma quantidade fantástica de poles. Apesar de sua incontestável posição na equipe, o francês estava focado em ter um companheiro de equipe forte ao seu lado. 
"No tempo em que eu considerava a equipe McLaren como minha casa", Prost recorda. "Em 1986 eu e o Ron Dennis tivemos uma viagem para o Japão para tentar o apoio da Honda. Foi a primeira vez que nós conversamos de quem poderia ser o outro piloto para pilotar conosco, falamos em nomes como Nelson Piquet e outros. Eu disse para o Ron, "Pegue o melhor piloto jovem com potencial para pilotar para uma equipe grande, e esse piloto é o Ayrton".

Prost e Ron Dennis, relação forte entre 1984 e 1988.
"Eles todos disseram, 'Por que você quer o Ayrton? eu disse: 'Porque não?' Eu sempre estava pensando no time em primeiro lugar. Obviamente eu não tinha idéia do que iria acontecer no futuro! Eu sabia que ele seria muito rápido, disso não havia qualquer dúvida.
"Eu nunca disse disso, mas várias pessoas próximas a mim disseram: 'Você já parou para imaginar quantos títulos mundiais você teria conquistado se tivesse vetado a ida do Ayrton para a McLaren?' Com certeza, mas isso não era algo que eu estivesse pensando na época...
Não demorou muito tempo para o Ayrton demonstrar toda a sua velocidade. Uma intensa batalha se desenvolveu, dentro e fora das pistas. Até os 'briefings' tornou-se objeto de competição entre ambos, como Prost recorda.

Prost era o líder da McLaren aonde havia conquistado dois títulos mundiais.
"Nós estavámos dominando a F1, mas nós queríamos melhorar o carro. E nós sabíamos também que se nós nos mantivessémos rápidos e consistentes, faríamos do carro cada vez melhor, e isso por causa de nós, dos pilotos."
"Nós sempre queríamos ter o carro melhor, e de fato nós estavámos lutando tão forte, que colocamos o carro em um desempenho muito acima dos demais. Nós dedicavámos três, quatro, cinco horas em 'briefings', enquanto outros pilotos gastam vinte ou trinta minutos. Um monte de gente nos disse que erámos loucos de fazer aquilo."

A relação entre Prost e Senna em 1988 foi de trabalho árduo e respeito mutuo.
"Mas havia duas razões para isso. O primeiro era melhorar o carro e o time, e segundo, nós queríamos ter absoluta certeza para não esquecer algo. Algo que pudesse me privilegiar diante do Ayrton, ou do Ayrton perante mim. Tudo era muito bem preparado de uma maneira extremamente profissional. Mas por causa disso que tudo se tornou um jogo psicologico. Não havia maneira do Ayrton deixar o 'briefing' antes de mim, ou eu deixar o 'briefing' antes do Ayrton. Então nós saiamos todos juntos. E muitas vezes os engenheiros estressados, diziam: 'meus deus! vamos embora...' ."
"Eu não acho - e na verdade tenho absoluta certeza - que nós tenhamos mentido ou escondido algo de um para o outro. Tenho certeza. Eu podia confiar nele, e ele em mim. Tudo era muito aberto e nós conversávamos como bons companheiros de equipe. Mas quando esse trabalho acabou, realmente o clima ficou muito tenso."

Perder para Prost era a pior das derrotas que Senna podia ter.
Dizer que Senna nunca ficava feliz quando perdia para Prost é algo completamente normal, "Era parte do caráter do Ayrton. Ele ficava furioso, com certeza. Era a parte que entendia nele que, para ele, perder era algo ruim, mas perder para mim era realmente pior. Toda sua motivação era em me vencer e eu comecei a entender isso durante nossa rivalidade, mas compreendi melhor quando eu parei. Ele estava na F1 obviamente por causa do seu amor pela velocidade e pela F1, mas sua grande motivação era em me vencer. E isso era gratificante para mim."
Prost disse que ele tinha uma certa vantagem sobre o Ayrton na questão de acertar os carros. Infelizmente para ele, Senna estava sempre em alerta para se beneficiar. "Eu me lembro muitas, muitas vezes que eu estava fazendo alguns testes e voltando para a casa quando recebo uma ligação do Ron Dennis: 'Você poderia voltar para a Inglaterra amanhã? O Ayrton resolveu ficar mais alguns dias no Brasil'. Você faz isso uma, duas, três vezes, mas no final das contas, você começa a ficar furioso com a situação. E ele estava sempre ciente do que eu estava fazendo e de como o carro estava se comportando. E o Ayrton poderia pilotar exatamente o mesmo carro dos testes, então ele estava sempre em uma posição além."

Senna e Prost dividindo o pódio, cena comum.
"Para acertar o carro eu não achei o Ayrton o melhor piloto, mas mentalmente e pilotando no limite em uma volta para conseguir uma pole, ele realmente era o melhor de todos. Eu não acho que aprendi muito com ele, porque é mais fácil você aprender a corrigir uma pilotagem ou aprender a acertar um carro do que aprender a concentração ou mentalidade do negócio, porque você nunca vai conseguir mudar isso de uma hora para a outra."
Com certeza, a relação entre Senna e Prost é muito recordado pelas batalhas dentro das pistas. Algumas como em Suzuka em 1989 e 1990, terminou em desastres, mas teve outros casos para serem recordados. Ayrton era um sujeito que nunca aceitava que estava errado ou que cometia erros. "Muitas vezes nós conversamos com Ron sobre o fato de nós decidirmos as corridas na pista, em condições igualitárias." disse Prost. "Porque nós estavámos na mesma equipe e nós não queriamos perder a corrida para a equipe, então nós tinhamos que ser cuidadosos. Mas quando ele estava dentro do carro... Eu me recordo uma ou duas vezes, por exemplo a largada do GP da Inglaterra de 1989, ele me ultrapassou na primeira curva. Ele simplesmente se manteve com o pé embaixo por dentro e me empurrou para fora. Obviamente se eu não me mantesse cinco metros do carro dele, nós iriamos nos tocar e sair da corrida. Era o jeito dele pensar e agir.
"O problema do Ayrton nesse tipo de situação era que não adiantava conversar. Você não podia conversar sobre estas situações com ele, porque ele nunca iria aceitar que estava errado. Ele nunca tinha o mesmo senso de julgamento, não somente comigo mas com todos. Ele sempre pensava que estava pilotando da maneira mais correta do mundo - ele nunca percebia que estava colocando os outros em riscos com suas manobras - e ele nunca via as coisas do jeito que você as via. Absolutamente nunca.

Reta de Estoril, Senna espreme Prost no muro, para Prost, com ele não tinha conversa.
Trabalho em equipe, os dois elevaram a McLaren a um patamar inalcançavel.
"Eu nunca escutei, 'eu cometi um erro' , ou 'eu fiz algo errado'. Sem chances. Ele nunca tinha desculpas estúpidas - não fazia parte de sua personalidade - mas ele nunca aceitava que tinha feito algo de errado ou cometido algum erro."
Um caso em particular minou com o relacionamente dos dois. "Nós tivemos uma inesquecível história em Ímola/1989, quando  nós tínhamos um "acordo de cavalheiros" dentro da equipe. Nós dissemos: 'Ok, nós queremos ganhar a corrida - não podíamos deixa-la escapar da McLaren. O piloto que largasse melhor faria a primeira curva na frente, lideraria a corrida, e então teria uma corrida livre, sem confusões após a primeira curva'. Então ele me ultrapassou antes da primeira curva. Quando nós conversamos a respeito ele veio a mim e disse que eu tentei ultrapassa-lo, coisa desse tipo.
"Alguém disse: 'Ayrton, nós temos o vídeo, milhões de pessoas assistiram isso'. Mas ele se manteve irredutivel. O seu jeito de pensar e pilotar era completamente diferente do que eu havia visto antes. Isso aconteceu umas duas ou três vezes. E esse era o Ayrton Senna. Por isso era muito dificil ir contra ele.


A ultrapassagem da discórdia

"Era necessário que você tivesse muita experiência para entender como e porquê ele pensava assim. De outra maneira, você jamais compreenderia. Você diz: 'Esse cara é maluco'. Ele não é maluco, essa é a maneira que ele age dentro do carro, e quando ele está dentro do carro, ele não pensa em mais nada.
"Para mim era muito estranho. Eu nunca tinha experimentado algo parecido. Sabe, quando você está conversando sobre alguém, você está falando num todo. Mas tudo isso era uma parte de sua personalidade. Com certeza, ele estava utilizando todo o seu carisma ao seu favor. Se ele estava sendo forte mentalmente ou até duro algumas vezes, era por causa dessa parte da sua personalidade. Obviamente não é facil competir contra alguém como ele. Você nunca sabia o que iria acontecer..."
Prost percebeu que Senna era tinha um caráter diferente em 1988 Mônaco após o brasileiro vencê-lo na luta pela pole-position. A explicação sobrenatural de Ayrton sobre sua conquista deixou Alain Prost chocado. "Ele disse para a imprensa que tinha saído do carro e olhado para o mesmo de fora, e viu como o carro estava se comportando na pista. E então percebeu o que estava acontecendo de errado e voltou para o carro e pilotou perfeitamente, fez a volta perfeita."

Após perder a pole para Senna, contou com a desconcentração do rival para levar a coroa.
 "Obviamente eu estava ao seu lado, olhando para a imprensa, olhando para o pessoal. Eu disse para mim mesmo: 'Eu espero que não tenha que responder perguntas a respeito disso, porque eu não sei o que pensar!' É como você não estar fazendo o mesmo trabalho, o mesmo negócio. Obviamente ele podia ter feito algo de errado nas voltas anteriores, percebido o que tinha feito de errado, corrigido e feito a volta perfeita, eu poderia aceitar isso. Para mim era muito dificil escutar tudo aquilo."
"Depois daquele dia eu percebi que ele teria todo mundo ao seu lado. Era a moderna F1... de fato as pessoas precisavam de uma pessoa como ele. Ele era diferente. Eu era muito chato! Eu realmente me senti como um merda; como eu vou me comportar em situações como estas? Como eu posso explicar que eu perdi a pole-position para um cara que saiu do carro? viu ele do céu? Era muito, muito díficil. Ninguém podia entender como era dificil."

Prost não compreendia o lado "sobrenatural" de Ayrton.
No inverno europeu de 1993 para 1994 começou uma trégua na rivalidade. Prost agora estava aposentado e Ayrton Senna tinha assumido seu carro na Williams Renault, Senna tinha razões para reativar o relacionamento com o Alain. Ele estava sofrendo para acertar o novo FW16, agora sem os recursos eletrônicos. Ayrton estava interessado nas opiniões do francês sobre o modelo anterior. Mas o interesse do brasileiro ia além disso.
"Depois que eu me retirei nós começamos a conversar sobre outras coisas, o fato era que ele estava receoso, e não sentia segurança nos novos carros, então ele queria que eu liderasse a GPDA (Grand Prix Drivers Association) para a segurança da F1. Ele estava muito, mas muito preocupado com a segurança. Ele estava me parecendo uma pessoa mais fraca. Digamos, ele estava normal."
"Ele me chamou algumas vezes, algumas por razão nenhuma. Ele queria apenas conversar. Ele tinha problemas com o novo carro, e estava convencido que a Benetton estava trapaceando, e ele estava muito chateado com isso - e não era eu que estava dizendo, era ele que dizia essas coisas para mim!".

Prost e Senna, trégua na ferrenha rivalidade.
"Ele estava muito preocupado com a segurança. Eu não sabia o porquê da preocupação naquele instante, porque nós nunca tivemos grandes problemas em nossas carreiras. Obviamente os carros estavam ficando cada vez mais rápidos. Foi quando ele chegou em mim e disse que não se sentia tão motivado quanto antes. Ele disse que sentia minha falta e que não era mais a mesma coisa. Sua voz e seu comportamento era muito diferente. Ele estava com um olhar sereno e fraco, não era o mesmo Ayrton que eu conhecera antes ."
"Eu percebi então que o Ayrton era obcecado em me vencer somente. Não tinha o mesmo desejo de vitória contra um Nigel Mansell ou Michael Schumacher. Eu fiquei realmente muito impressionado com isso. Algumas vezes você pode pensar que isso é uma piada, mas ele repetia isso todas as vezes que nós conversávamos. Ele queria que eu retornasse para a F1 e brincava dizendo que queria me ver sentado no McLaren com motores Peugeot, rival da Renault. Era realmente interessante, só então que eu percebi que aquilo que eu pensava a respeito era realmente verdadeiro."

A saída de Prost da F1 derrubou a motivação de Ayrton, segundo Alain.
Prost tem algumas boas memórias de San Marino. Ayrton Senna o cumprimentou ao vivo na TV francesa em uma volta onboard dizendo que sentia sua falta nas corridas. Antes da corrida de Ímola, o brasileiro veio até a garagem da Renault, que estava lotada de gente, aonde Alain estava almoçando, apenas para cumprimenta-lo. Um gesto que deixou todos atordoados, principalmente o francês.
"Pode parecer estúpido, mas não há chance de você pensar que um piloto como o Ayrton pudesse vir até a garagem, lotada de gente que você não suportaria ver antes de uma corrida, apenas para dizer: "Olá Alain, como você está? Venha me ver na garagem antes da largada."
Eles conversaram pela ultima vez, sozinhos atrás do motorhome da Williams, alguns minutos antes da largada. Algumas coisas, ainda mantem-se vivas na mente de Alain. Ele disse novamente que sentia minha falta nas pistas. 
"Todos sentem a falta do Ayrton, por causa do seu comportamento dentro das pistas. Você ainda o quer ver lá, na pista, lutando contra o Michael Schumacher! Eu não sei como seria se fosse hoje, porque ele estaria mais velho, e nós infelizmente perdemos esta parte."

Senna e Prost em Bercy, 1993 - antes rivais, agora amigos no kart.
"Ele era uma pessoa muito estranha, mas ao mesmo tempo que você o quer proteger, você quer automaticamente ajuda-lo. Eu não sei como. Eu acho que o que nós mais perdemos talvez tenha sido descobrir mais a parte humana do Ayrton. Se ele ainda estivesse entre nós ele ajudaria muita gente, especialmente as pessoas do Brasil, as crianças do Brasil, porque ele seria como um deus. E ele continua, mas se ele realmente estivesse aqui entre nós ele usaria sua fama para voôs maiores, ele seria algo muito grande em seu país. Acho que essa parte é a que mais perdemos."

 

Texto extraido da Revista Autosport
por Adam Cooper, Abril/2004