quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ayrton Senna e Ferrari

Como a Ferrari perdeu Ayrton Senna


Em 1990, Cesare Fiorio secretamente persuadiu a lenda brasileira para integrar a Ferrari.

Segunda-Feira, 9 de Julho de 1990, o cavalinho rampante estava de ressaca. No dia anterior, a Ferrari de Alain Prost tinha vencido o GP da França e completado uma centena de vitórias na F1. Foi uma conquista tão grande que foi capaz de amenizar os estragos feitos pela eliminação da seleção italiana na Copa do Mundo de 1990 em casa.

Prost tinha vencido 3 das 7 corridas do campeonato mundial até então. Os chassis, uma evolução do ano anterior, estava sendo capaz de lutar de igual para igual com McLaren e Williams, as duas equipes que tinham monopolizado as vitórias dos anos anteriores. O chassi 641 era o único carro com câmbio semi-automático e alguns controles automatizados, e o seu motor v12 poderia lutar muito bem contra os v10 japoneses da Honda, seu principal rival.

O Desempenho da Ferrari nas mãos de Prost despertou o interesse de Senna.

Cesare Fiorio, o diretor-esportivo da Ferrari na época.

Muito dos créditos do "ressurgimento" ferrarista poderia ser dado ao diretor-esportivo Cesare Fiorio, o homem que, um ano e meio depois da morte do fundador Enzo Ferrari, foi incumbido da tarefa de liderar a equipe de volta as vitórias. Depois de 20 anos trabalhando na parte esportiva da FIAT, Fiorio sabia da grande responsabilidade de liderar a equipe e aceitou o desafio.

Naquela mesma manhã, no momento em que o diretor estava reflexivo com as consequências de suas ultimas glórias, a máquina de fax começou a funcionar.
Duas páginas, enviadas desde Mônaco, estavam chegando no seu fax. Eram 9 e 50 da manhã. A página com caracteres inclinados e pouco legível demonstravam que o fax havia sido enviado de um aparelho portatíl, mas no rodapé tinha uma assinatura de ouro: Ayrton Senna da Silva.

O lendário brasileiro tinha sido campeão mundial em 1988. Agora um fax demonstrando seu desejo de pilotar para a Ferrari na próxima temporada. Um pequeno "terremoto" sacudiu Maranello. Se isso não fosse suficiente para sacudir o paddock da F1, nada seria.
No entanto, o "terremoto" não veio a abalar porque, de fato, Ayrton cumpriu seu contrato com a McLaren nas três temporadas seguintes e ele nunca veio para a Ferrari.

 Senna queria correr na Ferrari em 1991.

Isto foi apenas um capricho de uma lenda do automobilismo? Não exatamente...

Sentado em seu escritório em Turim, Cesare Fiorio mostra o seu precioso fax. Ele sorri e diz: "Essas poucas páginas foram o máximo que eu levei quando eu sai da Ferrari." Nesse pequeno e curto escritório, ele senta e nos prepara para divulgar o seu extraordinário segredo. 

Senna e Ferrari. Fogo e enxofre. Uma inflamável aliança que brevemente existiu, com Cesare Fiorio como arquiteto.

"Em 1989", ele diz, "O time lançou um grande plano de ataque para fazer a equipe retornar à elite da F1. Era um claro objetivo de contratar os melhores engenheiros e pilotos à disposição."
A Ferrari começou 1989 atrás das equipes McLaren, Williams e Lotus em termos de resultados obtidos nos ultimos anos. Mudanças tinham que ser feitas, e Fiorio - que na época estava a frente da equipe Lancia no campeonato de rali - foi o primeiro a ser chamado para liderar a equipe rumo ao renascimento.

Sua estratégia era simples - e tinha que ser eficaz."Ferrari tinha dois bons pilotos", ele recorda, "em Nigel Mansell e Gerhard Berger - e não tínhamos nada contra eles. Mas a McLaren tinha dois espetaculares pilotos com Senna e Prost, e eles tinham vencido quase todas as corridas de 1988. Como diretor-esportivo, era o meu trabalho focar nesses detalhes, particularmente eu sou um daqueles que acredita que o piloto pode influenciar no resultado mais do que um carro. Então era natural que eu me aproximasse de um dos dois espetaculares pilotos para ver se eu poderia recrutar um deles para a Ferrari."
Poucas semanas depois de ter sido contratado, o novo diretor-esportivo explicou seus planos para o corpo diretivo e para o novo presidente da fábrica - Piero Fusaro. E não foi muito dificil para obter aprovação - ou orçamento. Sua missão era trazer Prost e Senna para a Ferrari, e dinheiro não era problema para isso.

 Sua missão: Trazer Senna e Prost para a Ferrari

Fiorio não perdeu tempo. "Eu tinha entrado em contato com os dois em apenas dois meses para integrar à Ferrari." Ele diz. "Eu estava usando a mesma filosofia que usei no rali. Eu não queria me ver em volta de 20 advogados ou sentar para discutir 200 páginas de um contrato. Eu preferia sempre ir na conversa direta com o individuo."

Negociações avançaram rapidamente. Prost estava tendo um período dificil na McLaren, e ele estava cansado das intrigas causadas pelo explosivo relacionamento com o brasileiro. Sentindo que ele estava sendo relegado pela parte inglesa da equipe que o ajudou na conquista dos dois títulos mundiais até então, ele decidiu se mudar para a Itália."
"Alain queria um novo desafio e mudar um pouco os ares." disse Fiorio. "Ele estava completamente receptivo com a proposta e confirmou o acordo quando nos encontramos em um hotel perto de Hockenheim, na noite de sexta-feira antes do GP da Alemanha de 1989".

 Prost e Ferrari, acordo firmado em julho de 1989.

As negociações com Senna não avançaram tão rapidamente. "Eu me aproximei dele durante do GP de Mônaco, em maio." Fiorio recorda. "No mesmo tempo em que ele ficou interessado, ele não tinha muitas razões para deixar a McLaren antes do final do contrato, que se encerraria em dezembro de 1990. Ele estava compromissado."

A melhora significativa do desempenho da Ferrari não poderia fazer nada para que se alterasse o cenário de negociação, a principio. Mas no final da temporada, Fiorio teve que encarar os fatos. Senna ficaria na McLaren em 1990, e a Ferrari continuou com Mansell para ser companheiro de Prost.

Nigel Mansell, o homem que seria substituido por Ayrton Senna na Ferrari.

Não era exatamente o que Cesare sonhava. O homem do bigode mais rápido do mundo era um piloto inconstante, mas com a chegada do tricampeão mundial, talvez Nigel poderia acelerar o desenvolvimento da Ferrari para retornar ao topo. Isso não significava que a equipe tinha desistido de Senna. Fiorio continuou achando sua contratação necessária, e continuou o flerte. "Era natural", diz Fiorio, "e particularmente Senna tinha deixado uma porta aberta para 1991. Ele não era insensível ao mito Ferrari, e eu senti que ele estava inclinado a fechar conosco."

Negociações entre Senna e Ferrari ficaram em segundo plano durante o inverno e assim continuou no inicio da temporada. "As conversas voltaram no Brasil, depois da segunda etapa do campeonato mundial." diz Fiorio.
"Na segunda-feira depois da corrida, Ayrton enviou um carro para me pegar no hotel Transamerica em São Paulo. Eu fui levado para a sua casa, e nós conversamos durante o dia todo desenhando como seriam as bases do acordo. Apenas nós dois, e em alguns momentos seu pai Milton e sua irmã Viviane se colocavam a disposição para alguma ajuda."

No seu voo de volta a Inglaterra, Fiorio estava otimista. Senna não tinha lhe dado a confirmação, mas seu interesse na Ferrari colocou o diretor-esportivo em uma positiva situação.
"Nos encontramos novamente em Julho", diz Fiorio. "Antes do GP da França. Na quinta eu peguei um jato da Ferrari e fui de Le Castellet até Nice, e fiz meu caminho até Mônaco, para ir na casa do Ayrton. Eu me lembro muito bem, foi no Castelo Houston na avenida Prince Grace. Foi o encontro decisivo."

Fiorio tinha uma carta na manga crucial. Por mais de um ano, o ex-designer da McLaren Steve Nichols estava trabalhando na Ferrari - ele foi o homem que concebeu o McLaren MP4/4 que venceu 15 das 16 corridas em 1988, ano do primeiro título de Senna. Isso virou a balança a favor da Ferrari. "Durante nossa conversa, eu e o Ayrton concordamos em todas as bases," diz Fiorio. "Tinhamos apenas um ou dois detalhes para resolver, e como nós poderíamos integrar seu patrocinio pessoal - o banco Nacional -, sem causar nenhum problema para a Phillip Morris, principal patrocinador da Ferrari. Na quinta à tarde nós formos ao circuito com quase tudo acertado. Ayrton apenas perguntou se nós poderíamos lhe dar alguns dias para pensar."

Senna e Ferrari, o que poderia ter sido esse casamento?

Pensar em dinheiro? "não era o mais importante," diz Fiorio. "Ayrton quer ser pago no valor correto para a época. Ele estava mais preocupado com a infraestrutura da equipe, e como seria concebido o carro." 

E a noção de ter Prost como companheiro novamente? "Não lhe preocupava em nada."
No domingo, Prost conseguiu uma merecida vitória, que provou ser um chamariz. "No outro dia," diz Fiorio, "Ayrton lhe enviou uma carta com a confirmação da intenção e com o aceite de todas as bases do acordo." Senna deixou claro que sua intenção era correr para a Ferrari em 1991, com uma opção para 1992. Duas semanas mais tarde, Prost venceu o GP da Inglaterra. Sua terceira vitória consecutiva foi com uma martelada  para a confirmação de Senna e para o ressurgimento da dupla, agora na Ferrari.

"mas que", Fiorio diz. Com um piscar de olhos, as coisas começaram a dar errado. Quando eu voltei para a fábrica, estranhamente ninguém estava interessado em corridas ou na equipe de F1. Tinha um pequeno clima de guerra. Todos estavam dizendo um para o outro: "O problema agora é seu." Pelo menos, foi o que eu percebi. Quanto mais sucesso nós conseguíamos, mais e mais pessoas começaram a prestar atenção em nós. Eles (cúpula da Ferrari) queriam os louros da vitória e começaram a se intrometer em tudo".
"Piero Fusaro foi um deles. Ele era um burocrata, que na sua infância, se sentia relegado."

No seio da equipe, os relacionamentos pioraram. "todos de repente", diz Fiorio, "Fusaro percebeu que os problemas organizacionais da equipe estavam resolvidos e ele sentiu que não precisava mais de mim."
"O que eu não consigo entender até hoje," diz Fiorio, "é porque Fusaro declarou guerra contra mim quando nós estavámos numa ótima posição para a conquista do título. Ele estava tentando se colocar ente eu e o Alain, e ele conseguiu."

Fiorio acusa Fusaro de ter dito ao Prost tudo sobre o secreto plano de contratar Ayrton Senna. O francês se sentiu traído, o que lhe fez se sentir hostil a Cesare Fiorio, que diz: "Ele completamente perdeu a confiança em mim. Ele deve ter pensado que eu queria contratar o Ayrton para substitui-lo. Com Fusaro entre nós, jogando as coisas no ar, e com a imprensa piorando cada vez mais a situação, nosso relacionamento deteriorou-se completamente."

Ao saber das negociações com Senna, Prost se enfureceu com Cesare Fiorio.

E então veio a bomba. "Na segunda metade da temporada de 1990, Fusaro me disse: Então é isso! Nós não temos mais negócios a fazer com o sr. Ayrton Senna!" O mundo de Cesare Fiorio ruiu. "Quando ele tomou essa decisão, eu me senti sancionado", ele diz. "Eu tinha investido muito pessoalmente, e foi o período mais dificil da minha carreira. Eu me senti como um idiota, e eu fui orientado pela minha equipe a fazer absolutamente o contrário do que tínhamos acertado anteriormente. E o que eu falaria para o Ayrton?".

Oficialmente, as pressões do patrocinador foram citados como a razão da quebra do acordo. "Na época", diz Fiorio, "A Marlboro patrocinava McLaren e Ferrari, e foi dito que não seria interessante para a empresa ver os dois melhores pilotos do Mundo se degladiando novamente na mesma equipe. Jamais essa foi a verdadeira razão. Foi apenas uma louca decisão política, arquitetada dentro da minha própria equipe contra a minha pessoa."
O humor da Ferrari começou a ficar tenso. Estava pior depois do time ter perdido o GP de Portugal quando Nigel Mansell tentou espremer Prost no muro - manobra que deixou as McLarens de Senna e Berger livres para liderar. Fiorio foi eventualmente forçado a deixar a equipe em maio de 1991.

 Mansell e Prost, clima ruim criado pelo ambiente hostil da Ferrari.

Senna bate em Prost e ganha o bicampeonato em 1990. Fim do sonho ferrarista.

Hoje, os italianos se sentem convencidos de que seria possível ter Senna e Prost trabalhando juntos na Ferrari. "Alain era profissional", diz Fiorio. "Um tricampeão muncial nunca se sentiria ameaçado com uma nova parceria com Senna. Além disso, tive vários problemas como esses na época do rali. Eu sempre tive acesso aos melhores pilotos, e nunca tive problemas com isso. Os melhores pilotos podem te dar dores de cabeça, mas eles sempre vencem. Muitos pilotos não."

Cesare Fiorio tem alguma coisa contra Alain Prost? "absolutamente não", ele diz. "Nós aprendemos, dois anos depois, que Fusaro jogou um contra o outro. Além disso, quando o Alain comprou a Ligier, ele me chamou para trabalhar com ele demonstrando que entre nós, não há nada de ressentimentos."
Por tudo isso, Fiorio relembra que ele esteve por muito pouco de concretizer seu desejo de formar a equipe dos sonhos. "Muitos não quiseram que acontecesse. É uma pena porque seria muito dificil bater a Ferrari em 1991. A vida seria muito dificil para nossos rivais."

No final de 1990, o ódio entre Senna e Prost chegou ao seu ápice depois que o brasileiro bateu propositalmente na Ferrari do francês na decisão do título em Suzuka. Isso culminou com qualquer chance mínima que houvesse de reunir os dois pilotos na mesma equipe. Senna venceu o campeonato seguinte, em 1991.
E o "fax de ouro" de Senna? Continua guardado a sete chaves no cofre do escritório de Cesare Fiorio.




Bibliografia:
Revista Autosport
vol. 158 n. 12
03/2000
por Simon Arron
tradução por Cláudio Souza
@claudiosgs

6 comentários:

Ricardo Menegueli disse...

Fantástico.

Anderson Lopes disse...

Ótima História!

Bruno Braz disse...

Muito legal.

Alveri disse...

Adoro este tipo de história, parabéns.

edu disse...

Ótimo Blog !!!

Já coloquei seu blog entre os favoritos no meu navegador !!

Parabéns !!

Vinicius Alexandre disse...

ótima história mesmo,gostei muito do blog parabéns pelo ótimo trabalho!